Gil Vicente, foto: Google.
Se a investigação nas ciências humanas e nas letras é relativamente fácil de ser entendida e alcançada, a investigação em Arte é bastante mais complexa e mais dificil de alcançar o seu entendimento. A própria História (da Arte) e as obras de Gil Vicente como as de Platão o demonstram.
Na investigação em Arte, após atingir os limites humanos da investigação científica sobre o objecto de Arte em causa, há que passar aopatamar superior do inteligível (o mais alto na linha dividida na verticalde Platão - saber voltar à Caverna e sobreviver, ser capaz de voltar a sair - atingindo a hiponóia da obra de Arte na noética superior), para utilizar ainda a linguagem de Platão. Neste patamar é preciso saber ler assemelhanças nas diferenças - onde parecem não existir - saber movimentar-se no mundo figurativo, nas metáforas das metáforas, nasmetáforas das ideologias, nas metáforas da realidade... E para este mundo não tem havido formação, pois, em geral, nem dele há consciência da sua existência.
Como dizia Pierre Francastel - há mais meio século atrás, - existe um pensamento figurativo como existe um pensamento matemático... Contudo, na nossa investigação devemos, tanto quanto possível, utilizar a cultura da época em que o Teatro de Gil Vicente foi criado, utilizar os mesmos dados que estavam disponíveis ao autor dos Autos. E por isso recorremos a Aristóteles, e muito mais ainda a Platão, que foi o autor preferido por toda a renascença.
Assim, para exemplificar o salto ao patamar superior do inteligível, lembramos Platão, na República (487a-488a), com Sócrates respondendo a uma pergunta de Adimanto, após um complexo raciocínio deste sobre a argumentação racional e os seus limites: A pergunta que me fizeste carece de uma resposta em forma de metáfora. [Adimanto] Mas não é teu costume, segundo julgo, falar por metáforas. [Sócrates] Seja. Estás a troçar, depois de me teres atirado para um raciocínio tão dificil de demonstrar! Ouve então a metáfora... (...) Após a conclusão da metáfora, [Adimanto] É mesmo assim! [Sócrates] Não me parece que seja necessário examinares a fundo o quadro, para veres que se assemelha às relações das cidades com os verdadeiros filósofos; mas compreendes o que quero dizer. [Adimanto] Perfeitamente!
Este não é um exemplo único nos textos de Platão. Mas, hoje, e cada vez mais, as dificuldades em ver as semelhanças e ler uma metáfora (no sentido mais geral da palavra) é uma constante entre o público mais bem formado e mesmo entre os mais eminentes acadêmicos.
O exemplo mais importante apresentado por Platão desta situação é Hípias (em Hípias), o maior sábio da Grécia, que sabia mais que os sete sábios todos juntos, e era absolutamente incapaz de ler uma obra de Arte.
Por isso, as preferências deste tipo de sábios, em relação à Arte e aos artistas encaminha-se sempre para os tolos, os patetas, os rapsodos, osíons. Que são sempre os mais premiados, sempre apresentados e beneficiados como os melhores da urbe. Assim se fazem os grandes artístas da actualidade e assim se enchem os museus.
Mas o problema com as obras de Gil Vicente começa logo com ainvestigação científica (nas letras), com a sua prosa, nas deficientes leituras do Preâmbulo e sobretudo da Carta de Santarém, e mais ainda, como se pode ver no parágrafo exposto mais acima, confrontado com a nossa análise do Auto da Visitação - e Visitação é uma peça muito simples, - pois, nem a letra dos versos, nem a sua organização em estrofes e coplas (ou enlaces), nem a semântica (senão a sintaxe) das frases tinha sido entendida até agora, quanto mais o sentido do texto global da obra... E só depois dele bem entendido se pode passar à análise da peça de teatro, do drama, da acção dramática... E só depois, se passa à obra de Arte, mas para esta, só numa elevação ao patamar superior.
Como Platão teria deixado escrito na porta da sua Academia (tradução livre): aqui só entra quem souber toda a geometria (a geometria era o melhor modelo da Ciência da época).
Observações sobre o nosso projecto de investigação
Enfrentámos a proposta de apresentar os resultados dos nossos estudos da época (cultura, literatura, etc.), da nossa pesquisa e investigação científica, na forma de sinopses dos autos de Gil Vicente, a par da sua listagem ordenada na datação correcta e dados históricos, em suma todo o trabalho mais árduo. Ora, não devendo nada ao país, nem a Fundações ou outros organismos, nem a ninguém, optámos pelo seu adiamento constante enquanto se mantiverem as condições em que trabalhamos.
Decidimos fazer o que já afirmámos, publicaremos aquilo que tivermos tempo de passar a escrito. Apresentando os Autos de uma forma tão completa quanto possível, de modo a serem entendidos porclarividência, podendo haver sinopses de outras obras, mais ou menos completas, conforme se torne necessário para a compreensão do Auto que estiver a ser analisado. Foi o que fizemos com o Auto da Alma (parte de Floresta de Enganos), com o Velho da Horta (sinopse completa de Sibila Cassandra), com Visitação (sinopses de algumas peças de Juan del Encina, da Égloga de Francisco de Madrid) e, com a Carta de Santarémde 1531, onde, como um exemplo, antecipamos uma primeira análise doAuto da Índia.
Decidimos que para o que não houver tempo na nossa vida, e não haverá nem para uma pequena parte, (seja aqui no jardim seja nacochichina), alguém ficará com a tarefa de prosseguir este trabalho agora iniciado, 500 anos depois de Gil Vicente...
Fonte: O Teatro de Gil Vicente (http://www.gilvicente.eu/autos/ordem.html).
Desde já, peço desculpas á todos os leituras do blog, por não ter postado a continuação desta matéria no dia prometido, um forte abraço á todos!
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