sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Reportagem especial- NELSON RODRIGUES


Nelson Rodrigues.
http://www.youtube.com/watch?v=uANBPhOkgtk&feature=player_embedded

http://especiais.ne10.uol.com.br/nelson/img/caderno/galeria/falecida/1.jpg

estes links acima são do vídeo e da galeria de fotos, respectivamente.

A falecida

Maria José tinha 20 anos e dois filhos pequenos quando resolveu se jogar na frente do trem velho que se dirigia ao litoral. Enquanto ela avançava sobre a máquina, usava amarelo, as crianças esperavam a avó terminar as mamadeiras. A senhora de cabelos curtos era a mãe do homem pelo qual Maria José resolveu ir embora, o homem que nunca estava em casa e há pouco havia deixado de amá-la. Os filhos pequenos, Francisca e Cássio, ela com dois anos, ele com um, estavam adormecendo quando chegaram correndo e gritando e batendo no portão. Disseram que Maria José estava sobre a linha do trem, que estava dividida em duas, agora usando vermelho. A avó se assustou, embora aquilo não fosse exatamente uma novidade: fazia algum tempo que a nora parecia partida. Lembrou do que ela disse antes de sair de casa: "Cuide de Francisca para mim".
Maria José (1965-1985) está aparentemente inteira na foto do santinho que Francisca, agora com 29, guarda consigo. Cuida bem do papel amarelado que em um educado português, aquele geralmente dedicado aos mortos, solicita: "Em vossas orações, lembrai-vos de Maria José dos Anjos". Uma vez beijou a imagem, deixou nela os lábios cor-de-rosa, materializou aquele amor que julgam inato, "amor de filha para mãe". Mas seu amor é construído e não poderia ser diferente. Afinal, como se ama alguém tão pálido e que foi viver tão distante?
A única informação real sobre a suicida que não suportou o desamor lhe transmite certo conforto: "Você parece com ela, era tão bonita". Cresceu ouvindo isso, ficou vaidosa, por ela e pela mãe. Antes de morrer, Maria José decidiu criar apenas a menina e prometeu o garoto a outra mulher, uma tia, irmã do homem que nunca estava em casa e há pouco a havia deixado. Maria não conseguiu suportar a outra família que ele quase formou, a outra filha que ele fez em outra mulher e que nasceu pouco antes da sua menina. Matou-se para esquecer. Assim cresceu Francisca: o pai sempre fora de casa, o irmão em outra família, uma irmã desconhecida, a mãe morta, banhada de vermelho e para sempre dividida em duas. Fez três, quatro, cinco, oito anos e durante todo esse tempo ela aprendeu a nomear os avós de pai e mãe, já que o normal era ter a figura de cada um, já que o normal era ter cada um ao lado do filho. O casarão construído perto das linhas do trem era quase totalmente tomado por homens, oito tios e duas tias. Foi uma delas que casou, deixou o lar e levou Cássio. Assim, o menino também aprendeu a nomear de pai e mãe os tios que o adotaram, já que o normal era ter a figura de cada um, já que o normal era ter cada um ao lado do filho. O pai distante às vezes aparecia. Francisca entendeu que aquela seria a regularidade do amor singular que ele lhe daria: meses fora, algumas semanas perto, uma frase qualquer, talvez um afago na cabeça.
Era alguma coisa, já que naquela casa extremamente masculina, onde as sutilezas não eram cultivadas, ela estava sempre à espera de algo que a fizesse sentir-se querida. Talvez querida não seja exatamente a palavra, Francisca não sabe explicar, talvez quisesse apenas morar com pessoas que parecessem com as outras pessoas, parecer uma menina como as outras meninas, meninas cujas mães não tivessem morrido partidas por um trem. Aquele trem representava toda aquela antissutileza. Por exemplo: na casa, quando fazia algo considerado errado, sua mãe falecida sempre voltava. A avó ameaçava mandar a menina para a outra família, a "família de lá", eram pessoas do outro mundo, e o mundo dos "dos Anjos" devia ser temido. Diziam: eram muito pobres, muito mesmo, não tinham casarão, não viviam perto da praia. Acrescentou outra informação sobre a mãe: além de muito bonita, vinha de um lar de gente sem nada. Compreendeu que algum conforto material era o máximo afago que teria naquela casa masculina, que não seria como as outras meninas, aquelas que, quando chegavam da escola, ouviam: "Filha, como foi na escola hoje? Filha, quer almoçar?". Mas Francisca, diz isso como se fosse casualidade, lembra daquela antissutileza e fala: "Nunca escutei nenhum deles dizer que me amava". Ficou sabendo que a irmã que nascera da outra mulher, a mulher pela qual sua mãe se partiu, mudara-se para outro País. Parecia que estava bem. Imaginou que ela tinha outra e melhor vida. A partir daí a irmã passou a fazer parte, na cabeça de Francisca, de um mundo desejado e não temido.
Se essa irmã desconhecida tinha uma mãe, ela tinha, mesmo que sazonalmente, um pai. Por isso aprendeu a ficar feliz quando o homem que desamou sua mãe partida voltou novamente ao casarão. A avó, como sempre, mostrou-se feliz com mais uma visita do filho que ela pouco criou. Ele veio, com ele uma frase qualquer, talvez o afago na cabeça. Francisca ficava por perto experimentando a certa normalidade que a presença do pai trazia. Um dia, à noite, ele saiu para beber, conversar, aquelas coisas que os homens da casa gostavam tanto de fazer. Ela foi dormir. Lembra quando acordou, sentiu a mão sobre o corpo, o short sendo puxado, e o hálito (eternizado em sua memória) que acompanhava a frase: "sou eu, não grite". Tinha nove anos e viu o pai, que naquele momento não via a filha. Francisca foi ficando nua, nua e muda, nua, muda e congelada, enquanto ele tirava a roupa e tocava seu corpo sem peitos, sem pelos, o corpo que enfrentava mais uma antissutileza.
Alguém abriu a porta e viu a menina e o pai, ambos nus. Avançou sobre os dois, tirou Francisca de lá, levou para outro quarto. Ela não sabe muito bem o que aconteceu, nem nunca vai saber. Dormiu. Quando levantou no outro dia, caminhou até a cozinha e a maioria da família estava ali, conversavam alto, conversavam espantados, só pararam quando ela chegou. Entre aquelas pessoas estava a tia que tornara-se a mãe de Cássio (seu irmão teve mais sorte, lá na casa que ele morava perguntava-se "como foi na escola?"). Decidiram que Francisca iria ficar com ela até que aquele pai que desamou sua mãe, que desamou sua filha, as duas agora estavam partidas, fosse embora.
Aquele episódio teve uma coisa boa: cuidaram um pouco mais da menina, viajou nas férias, ficou perto do irmão, era um contato aproximado da vida que queria. As aulas começaram, voltou ao casarão. Pouco tempo depois sua avó de novo anunciou: "seu pai está chegando". Naquele momento, já desaprendera a ficar feliz com a visita. Ele veio com o afago que simulava amor. Parecia que o "não grite" não havia acontecido, todos conversavam normalmente, masculinos, ela passava entre eles e ia brincar em frente ao muro alto do casarão. Uma vez, o pai chegou acompanhado por uma mulher. Estava grávida. Demoraram lá no casarão. Francisca lembra quando ela pariu: tinha dez anos e Juliana, o bebê, veio para ser mais uma naquela casa, mais uma criança que, de longe, parecia integrar uma família ideal. Avô, avó, tios, todos ficaram contentes com a ampliação familiar. Tudo entrou em um certo ritmo e certa organização de papéis – havia uma mãe, um pai, uma menina, um neném. Aí julho chegou. Francisca tinha onze anos quando o pai que a partiu em mil atravessou o portão. "Vamos na barraca comigo." Era algo que ainda os aproximava depois daquele "não grite". Ele a chamava e ela ia até aquele balcão meio precário com ele, ganhava qualquer doce, ele tomava uma cerveja. Naquele dia, não quis ir. Continuou a brincar. Aí ouviu, pouco tempo depois, um, dois, três tiros. Aí todo mundo começou a correr, não para fugir das balas, mas para saber a quem elas se dirigiram, de quem era o corpo, agora espetáculo, que estava estendido no chão. Francisca foi junto, correr fazia parte da brincadeira, chegou até a barraca. Seu pai estava caído e usava o mesmo tom de vermelho que sua mãe vestira há nove anos atrás. Estava partido. Olhou para ele mas não o viu: caiu no chão, desmaiou. Pelo menos era tranquilo aquele lugar.

SURGE UM DOS ANJOS


Quando Francisca acordou, tudo estava submerso em choro e drama, percebeu que o casarão nunca abrigaria a normalidade que ela ansiava, a normalidade que ela realmente acreditava existir. Ali seria sempre assim, uma lógica própria, uma economia de afetos, uma rede organizada da qual ela se desencaixava. A necessidade da sutileza, do amor, da mãe, do "como foi na escola hoje?", eram suas. A mãe de Juliana levou a menina, só seis meses de idade, para longe do casarão. Em pouco tempo voltou. Não deu conta da criança, preferiu deixá-la aos cuidados da lógica própria daquele lar. Se ele já abrigava uma menina sem mãe e pai, poderia abrigar outra. Francisca passou a cuidar da irmã pequena, a ser a expressão de mãe mais próxima que ela conheceria: dava banho, dava almoço, levava para a escola. Exercitava ela própria o modelo que desejara para si. Foram as duas crescendo amparadas por uma frágil rede de proteção. Apesar disso, não se tornaram próximas, amigas, nada daquilo que o nosso ingênuo senso de normalidade poderia esperar. Escreveram histórias distintas. Enquanto Francisca buscou anteparos que a resguardavam daquela vida que mal a acomodou, Juliana se inseriu bem naquele ambiente, naquela lógica, naquele pressuposto. O mundo das irmãs era compartilhado, mas cada uma interpretou à sua maneira o ambiente sem heróis ou belas histórias para contar. O tempo passou. Francisca fez catorze anos e arrumou um emprego. Fez dezoito, arrumou o pouco que tinha e anunciou: estava saindo de casa. Deixou Juliana para continuar a ser cuidada pelos avós. A menina tinha dez anos quando passou a ser a única garota do casarão a não ter a companhia do pai e da mãe. Sobre a saída de Francisca, um dos tios comentou: "Mudar para quê? Ser puta? Não dou um mês e você vai querer voltar".
Não voltou. Alugou um apartamento, arranjou outros empregos, vendeu roupas, impressoras, apartamentos. Passou a ser aquela pessoa da família que aparece de vez em quando, a pessoa que, ao se afastar, parece conquistar mais simpatia daqueles que deixou longe, como se apenas a distância ela tivesse sido finalmente percebida como alguém que valia a pena. Seu aparente sucesso material, seu distanciamento da lógica própria do casarão, seu inovador não às pequenas barbáries emocionais a transformaram em exemplo. Seu irmão também havia crescido, e, apesar de ter passado a vida em uma casa onde diziam "como foi seu dia?", começava a dar sinais de desamor próprio, de desamor aos outros. Era um exemplo que ensinava a Francisca: a normalidade nem sempre era bem-vinda. Cássio frequentou boas escolas, recebeu atenção apropriada, os afagos apropriados. Costumava frequentar estádios, gostava de futebol, o homem que o adotou, também. Fizeram bons amigos. Um deles, André, tornou-se mais próximo, saíam para beber, conversar. Um dia, André, que era tão importante e ninguém ainda sabia, começou a contar sua história pessoal. Que sua família foi maior, que uma tragédia aconteceu entre eles, que, quando era mais jovem, sua irmã havia se jogado em frente a um trem velho que dirigia-se ao litoral. Que sua irmã ficou desesperada quando soube que o marido tinha outra família. Que sua irmã tinha 20 anos, que usava amarelo, que morreu dividida em duas. Que tinha dois filhos e que nunca teve a oportunidade de vê-los, nem sabia como chegar a eles. Que era um dos Anjos.
Os tios-pais de Cássio primeiro emudeceram e não falaram para André que o menino que criavam era o filho de sua irmã suicida. Mas entenderam que não seria justo mantê-lo afastado dos sobrinhos, das divinas provas da rápida passagem de Maria José pela vida. Marcaram um encontro e contaram tudo. Para Cássio, que tinha em casa a figura do pai, o novo parente continuou sendo um amigo. Para Francisca, não houve opção: em pouco tempo André se transformou naquele herói que sempre deveria estar a seu lado, aquele que deveria ter a levado à escola, aquele que nunca deitaria nu ao seu lado, que nunca tiraria sua roupa e pediria "não grite".
Tornaram-se quase inseparáveis. Quase porque ele tinha sua própria família, sua vida, sua casa e sua lógica. Ela foi bem recebida ali, mas até certo ponto. O surgimento inesperado da filha daquela suicida causou algum espanto: havia um certo conforto, uma certa beleza, em não saber onde estavam os filhos daquela mulher nem amarela, nem vermelha, mas já desbotada. O aparecimento de Francisca trouxe o trem, os trilhos e toda uma história que parecia ter acontecido com outros à tona. Ela, a despeito do leve incômodo alheio, estava feliz e encontrava André, contava sobre como era difícil manter-se, contava dos amores frustrados, do casamento fracassado. Chamava-o de pai. Ele a apoiava, aconselhava, contava sobre suas alegrias e mesquinharias e frustrações também. Chamava-a de filha.
Enquanto Francisca e André se conheciam, enquanto se assombravam com a própria história, Juliana ia crescendo no casarão que a irmã mais velha deixou, ia aos poucos sendo moldada pelo avesso da sutileza. Em uma das visitas que fez ao antigo lar, Francisca percebeu que a menina absorveu a lógica específica, a lógica do trem. Decidiu que sua irmã não poderia engessar ali: deveriam morar juntas. Talvez desse tempo de reverter aquele modo de olhar a vida, talvez Juliana se acostumasse com alguma delicadeza. Levou a irmã para viver com ela no apartamento alugado. Com os dias, foi ficando claro que os antigos cuidados, o levar para a escola, o banhar, o dar o almoço, nada disso foi registrado pela menina. Não havia conversa, entendimento, carinho. Francisca percebeu que, trazendo a irmã para perto de si, trazia novamente aquele casarão masculino e desenfreado para seu cotidiano. Mas chegou tarde: o trem já havia passado. A irmã voltou para o casarão e ela voltou a ficar só na vida que escolheu para si. Antes de ir, Juliana contou a Francisca que estava tentando localizar a mãe que há quase 15 anos havia ido embora. A mãe que a largou na antissutileza do casarão. Achou-a na internet e só aí conheceu seu rosto. Falaram ao telefone e Juliana pôde conhecer sua voz. Prometeu: viria a Recife conhecer, de verdade, a sua filha. Pouco tempo depois, Juliana engravidou. Tinha dezesseis anos, deixou de estudar. Francisca ficou sabendo que o bebê era de um rapaz que morava nas imediações: antes de o filho nascer, ele foi preso. Menos de dois anos depois, Juliana engravidava novamente, de outro rapaz. Ele não estava perto quando o menino nasceu. Foi encarcerado no mesmo presídio onde o pai do primeiro ainda estava.
A filha da falecida Maria José acompanhou tudo aquilo de longe, ficou preocupada, mas sua vida também ia aos solavancos. Tentara um novo casamento, mas ele acabou tão rápido quanto começou. Viu-se completamente sem dinheiro, repleta de contas a pagar. Mas tinha André. A relação de proximidade dos dois tornou-se mais forte quando ela foi morar perto, na casa ao lado, a casa que ele conseguiu para ela. Ali era bem tratada por todos, mas, como no casarão que conhecia tão bem, começava a perceber que tornava-se de certa maneira invisível para todos aqueles que não eram André. Não se importou: tinha um pai. Estava em péssimas condições financeiras, estava só, mas tinha um pai. E seu histórico, àquela altura, impedia que ela sentisse certos tipos de dores. Este foi sem dúvida um dos maiores bens que levou após partir-se, ainda criança, ao meio.
Quando as coisas melhoraram, quando arranjou outro emprego, saiu da casa que ele custeava, seguiu em frente sentido-se confortável. Apesar de Juliana, da distância, das tentativas frustradas de se organizar financeiramente, estava feliz: sabia que podia contar consigo, sabia que podia contar com aquele que era um carinho e um herói. Até que um dia ligou e ele não atendeu. Até que ligou de novo e ele não falou. Até que o procurou e não encontrou. Mandou e-mail e ele não respondeu. Uma vez, outra, outra. Imaginou que poderia não ter agido corretamente com ele, que talvez tivesse falado algo que não foi apropriado, talvez tivesse cometido algum ato que inspirasse sua decepção ou desconfiança. Imaginou que sua presença contínua pudesse ter causado algum curto-circuito na família que ele construiu. Que tivesse se aproximado demais, solicitado demais, precisado demais. Talvez não estivesse acostumada a ter um pai. Talvez – será? – tivesse lidado, com ele, com a antissutileza com a qual sempre fora tratada.
Quis falar, pedir desculpas. Mandou outro e-mail e ele não respondeu. Uma vez, outra, outra. Nada aconteceu. Até que André, um dos Anjos, como ela, finalmente surgiu na caixa postal. Ele falava: "Eu tenho saudade, eu gosto de você, mas não quero mais contato. Vai ser difícil confiar de novo. É melhor assim." Foi assim, sem tiro, sem trem e sem trilho, que ele desapareceu. Faz quase seis anos e ela, fez aniversário mês passado, partiu-se novamente em mil.            

Fabiana Moraes

Fonte: JC On line.

Amanhã teremos a última parte do especial Nelson Rodrigues.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Reportagem especial- NELSON RODRIGUES

Nelson Rodrigues.


http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=aP_AgZOrkU8

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Acima, estão os links do vídeo e da galeria de fotos, respectivamente.

Valéria nasceu no masculino, há 34 anos, a poucos metros da praia onde seu pai passava dias e noites pescando arraias. Enquanto ele estava lá, na jangada de madeira, ela ia crescendo na casa de madeira e barro. Viu a mãe cozinhar quando havia o que cozinhar. Viu a mãe parir os irmãos que não demoravam a vir. Viu os meninos correndo salgados pela rua e os achou bonitos. Enquanto ela via, o pai navegava e puxava a rede cheia de peixes e lagostas e arraias. Com o samburá cheio, voltava para casa e via a mulher cozinhar o que ele trazia. Via a mulher parir os filhos que ele fazia. Via seus filhos correndo salgados e os achava bonitos. Contava: quatro homens, quatro mulheres. Mas a conta estava errada. Esse desacerto só ficou claro depois que João foi várias vezes para o mar e voltou várias vezes para casa. Uma, duas, três, dez, até perceber que por baixo da blusa de Valério se escondiam peitos de mulher. Uma, duas, três, dez, até perceber que por baixo da blusa de Jocélio, três anos mais novo que Valério, também estavam dois seios inchados. Escutou na rua o povo chamando seus filhos assim: "Oi, Valéria!", "Diz, Jéssica". João achou aquilo uma doidice: em uma mesma casa, dois filhos que pareciam filhas. Dois filhos travestis. Preferiu voltar ao mar.
Naqueles dias em que ele estava lá, esperando os peixes, as lagostas, as arraias, refazendo as contas (quantas mulheres e quantos homens haviam mesmo em sua casa?), os ainda meninos iam redecorando a própria identidade. Valério foi o primeiro: vestiu-se de progesterona e futebol. Estava ali pela areia de Morro Branco, em Beberibe, Ceará, quando viu um time sendo formado. Procuravam mais gente, olharam na sua direção, ele levantou a mão. Foi ser goleiro. Gostou. Tinha 15 anos. Enquanto jogava bola com os meninos bonitos, salgados, ia aprendendo um novo léxico: falta, tiro de canto e de meta, arremesso lateral, impedimento, vantagem. Falava-se na Copa de 1994 e Valério começou a sentir-se íntimo da linguagem comum dos jogos. O mundo ia se impressionando com as seleções da Bulgária, da Nigéria, ao mesmo tempo em que os vizinhos da rua se impressionavam quando Valério passava. Valério não está mais encorpado? Está. Valério não está com a cintura mais fina? Está. Valério não está parecendo mulher? Está. As injeções de hormônio iam reconstruindo o filho de seu João, que naquele momento flutuava no mar, procurava os peixes e as arraias e as lagostas e de vez em quando voltava a refazer as contas (quantos homens e mulheres mesmo?). Valério ia se redesenhando ao mesmo tempo que via mais jogos, acompanhava as notícias, olhava as jogadas que eram tão incríveis e sensacionais naqueles gramados. Admirava Raí, Edmundo, Bebeto, Romário. "Eram os craques."
Fazia oito anos que era goleiro quando um dia o Valério curvilíneo, já virando Valéria, ouviu: "Olha, o juiz faltou. Pode ficar no lugar dele? Pode apitar?". Era o Campeonato Municipal de Beberibe e fora escalado como o terceiro goleiro daquela partida – mais baixo, estava acostumado a ser espécie de suplente em campo. "E aí, vai?", repetiu Jorge, treinador de seu time. Devia ir? "Não se preocupe, eu oriento." Ele, virando ela, foi. Não voltou mais a ficar entre as traves. Recebeu os apitos, os cartões amarelo e vermelho, a função de dizer o que estava certo e errado em campo. Gostou ainda mais daquilo. Começou a ser chamado todo fim de semana, apareciam mais jogos, surgia um dinheiro. Dava uma parte à mãe, Dedéia (tem o cabelo avermelhado, de tintura, como a filha). Com a outra, comprava mais hormônio, novas roupas, redecorava-se. Finalmente, era Valéria. Jocélio, o irmão, fizera a mesma coisa e agora era Jéssica. Quando o pai voltou da pesca, trouxe os peixes, as arraias, encontrou as duas. Não precisou mais refazer as contas. Agora as roupas de menino escondiam com dificuldade os corpos femininos. Era mesmo uma doidice. Já estava ficando velho e voltava cada vez menos para sua jangada. Decidiu então nunca mais olhar os dois, as duas, o que fossem. A mãe o tempo todo sabia o que estava acontecendo, sabia que não só Valéria e Jéssica, mas os outros dois filhos homens também gostavam de homens. Não se importava. "Pior era se viesse polícia bater aqui na minha casa, nunca veio." Continuou a exercer o seu amor. Mas os peitos, os cabelos e a cintura fina das novas garotas não conseguiram fazer com que ela, na fala e no pensamento, olhasse Jocélio e Valério no feminino: sempre usa "eles" para falar das filhas. "O pai não gosta dessas arrumações que os dois fazem, reclama. É um bruto. Ele diz uma coisa, eu digo outra. Não troco o amor dos meus filhos por homem nenhum."
Enquanto a mãe dava amor e preparava o almoço, enquanto o pai pescava e desviava o olhar, Valéria seguia se especializando em determinar regras. Começou a apitar ainda mais: entre os árbitros amadores de Beberibe (50 mil habitantes), é uma das mais requisitadas. As curvas conseguidas com as injeções mensais de progesterona são (mal) disfarçadas sob o uniforme. O cabelo comprido e avermelhado é sufocado em elásticos e escondido sob a blusa. Disfarçar aquilo que custou tanto a ter e defender, aquilo que fez seu pai desviar o olhar, é uma das maneiras de assegurar que, dentro do campo, não vai ouvir o "fresco, bicha, veado", tão comuns quando os árbitros cometem erros (às vezes, nem precisam cometê-los). Não que ache o fim do mundo, mas quem é chamado assim é homem, não mulher, como ela. É claro que, sendo imperativa e dizendo que o está errado e certo em campo, sua blindagem está sempre ameaçada. Já se enganou e marcou um pênalti errado – a falta tinha acontecido fora da pequena área, mas achou que foi dentro. Foi seu maior erro na função de juíza. O que veio depois tornou o engano inesquecível: logo estava sendo empurrada pelos jogadores, a torcida revoltada, puxaram seus cabelos, levou tapa. Foi preciso chamar a polícia, saiu escoltada. Valéria resume:"foi uó".
Outras vezes, apitando, escuta um "tira essa mulher daí, ela sabe nada de jogo". Acha graça. "Se enganam mesmo. Tem jogador que não me conhece, entra em campo e aponta 'olha lá, é uma juíza'. Aí depois percebe quem eu sou, uns pedem desculpa." Sendo aquela mulher que disfarça as curvas sob a roupa de árbitro, ela não compartilha o vestiário, onde não há espaço para o feminino. Troca de roupa pelos cantos, sobrepõe peças, não revela o corpo entre os jogadores. Vários deles, dentro e fora de campo, já tentaram se aproximar dela – dela, Valéria, a travesti que usa como sobrenome um exuberante Laleska e que em 2001 e 2003 ganhou o concurso de Miss Gay de Beberibe. Nunca travou qualquer relação romântica a partir dos gramados. "Aqui precisam me respeitar. Se eu deixar acontecer, isso acaba". A tática deu certo. Em Beberibe, é difícil encontrar alguém que fale mal do juiz – o masculino, Valério. É o resultado não apenas da sobriedade adotada em campo, mas de uma visão que atribui ao masculino uma aura mais bem acabada de seriedade, confiança, como se, caso soltasse os cabelos ou exibisse a cintura fina em campo, Valéria, agora mulher, deixasse de ser realmente confiável. Mesmo portando cartões e apito.
"Ele tem moral, no campo mantém a postura de homem", diz o também árbitro José Valdenísio, 34 anos, vários jogos apitados ao lado de Valério (a), a quem refere-se como "professor." Estavam juntos na arbitragem da final do campeonato beberibense (entre Caetano e Barra do Lino) em 1997, estavam juntos nos jogos entre o principal time do Estado, o Fortaleza, e a seleção de Beberibe (em 2010 e 2011). Em campo, não viu em nenhum momento a moça exuberante que à noite passeia na praça da cidade, onde estão os bares mais procurados e a Paróquia Jesus, Maria e José. "Lá fora, ele é Valéria, é Laleska, mas sempre me respeitou, mesmo com esse lado feminino." A distinção bem marcada entre o homem e a mulher mostra-se também um conforto e um porto seguro na fala do jogador Alexandre Gama, 30, primo distante de Valéria. Desde os 17 atuando como meia-direita ou centroavante, ele admite que não ficou seguro quando o ainda rapaz foi chamado para atuar como árbitro. "Achava que ninguém ia levar a sério, mas Valério dominou a partida muito bem. E mesmo antes, ele era um senhor goleiro. Jamais poderia imaginar que isso iria acontecer aqui, dele virar um juiz, com moral mesmo em campo, como se fosse homem."
Se Valério, senhor goleiro, homem, possui esse enorme respeito dos colegas ("pode me ligar que eu faço questão de falar sobre ele", disse Alexandre, quando procurado pela reportagem), a Valéria Laleska divide opiniões. Não por falta de simpatia: fala com todos quando passa, brinca, é popular. Mas é bastante séria também no momento de dizer o que não gosta, o que não quer e o que não admite – obviamente, sendo travesti, essa postura lhe traz alguns senões. "Já briguei muito, não deixo ninguém me derrubar. Tem que me respeitar, como ele ou como ela."
O pai só queria saber do ele, e, quando voltava do mar, tinha notícias do sucesso do filho em campo. Ouvia sobre os jogos que ele tinha apitado, que estava fazendo curso de juiz em Apuiarés, cidade próxima. Ouvia sobre o respeito que despertava nos outros, o ótimo profissional em campo, "como se fosse homem." Mas nunca foi vê-lo levantando o cartão amarelo. A mãe também não, mas aí um dia chegou na sua casa uma equipe de TV. "A primeira vez que vi o Valério de juiz foi no programa do Ratinho. " Ela estava ali, cartão e apito em punho, no ar, ao vivo, quando chamaram seus pais. Foi em rede nacional que precisou olhar para ele – estar vestida de juiz não a blindou como todas as vezes, pois era justamente por suas curvas, o cabelo grande, a letra A no final do nome, que estava ali. Ficou constrangida com aquela surpresa. Teve ainda que dançar, mostrar-se alegre, sorridente, afinal não era travesti? Depois que voltou para casa, os vizinhos comentaram muito sua aparição na TV nacional. A mãe achou bonito. O pai nunca tocou no assunto.
Jéssica havia deixado Jocélio e Beberibe para trás quando a irmã tornou-se procurada pela mídia nacional, quando a irmã foi homenageada por entidades de defesa de direitos dos gays, quando a irmã foi parada nas ruas para posar em fotos de desconhecidos. Apesar de tudo o que as unia – irmãs, travestis, tinham a antipatia do pai e o amor da mãe – não eram próximas. Havia uma coisa que as afastava profundamente: Jéssica não conseguia mais ficar naquela cidade pequena, Valéria queria continuar ali. A primeira queria principalmente ganhar mais dinheiro e sair do desconfortável campo de visão do pai: comprou, em 2002, uma passagem aérea. Foi embora para São Paulo. Ficou ali um ano e meio e seguiu para a Espanha. Foi lá que continuou a se afastar mais da família e em especial da irmã: enquanto Valéria tomava injeções de hormônio, Jéssica se presenteava com silicone nos peitos, cirurgias, tratamentos para fazer mais lisos os cabelos pretos. Tinha um propósito: comercializar o corpo, o sorriso e sua companhia. O negócio lhe rendia benefícios que dificilmente conseguiria no Brasil, que dificilmente conseguiria em Morro Branco. Em pouco tempo o dinheiro obtido na Europa através do corpo, do sorriso e da companhia foi mudando a vida da família Gama em Beberibe: a casa da mãe ficou maior e mais colorida, a TV mais moderna, as roupas menos baratas, a feira com produtos melhores que antes só eram vistos em dia de festa.
O pai também era presenteado através do corpo feminino do ex-garoto. Ganhou um cordão de ouro, uma âncora como pendente, uma referência aos seus dias no mar. Já não buscava mais arraias com sua jangada, já sabia quantas filhas tivera. Não gostava quando a esposa chorava toda vez que Jéssica ("eu não tenho filho com esse nome", sempre repete) telefonava. Em 2006, ela voltou. Tinha muito dinheiro e um namorado. Era ex-cliente, um deputado da província de Málaga que se apaixonou por ela. Morreu há pouco mais de um ano. "Eu tratei ele tão mal. Se fosse hoje, faria diferente", diz Jéssica. Com o dinheiro conseguido e a ajuda do namorado, montou uma pousada, comprou casas para alugar, vendeu algumas para os irmãos ("fiz pela metade do preço"). Uma, que fica colada ao clube Big Brother, hoje pertence a Valéria, a última a sair de casa, última a ser objeto de desvio do olhar do pai. É nessa casa que às vezes as duas se reúnem para ver jogo de vôlei e futebol. Além de vestirem roupas femininas, além de compartilharem o olhar desviado do pai e o amor da mãe, as irmãs também dividem o amor pelos esportes. Ele serve não apenas para manter o corpo bonito – a pressão para manter curvas é tão grande entre travestis quanto é entre mulheres –, mas tem certa função terapêutica. Para Jéssica, ajuda a dissipar uma certa solidão. Esta sempre esteve à espreita: quando vivia em São Paulo e na Europa, não conseguia se desligar da família, do mar, da comida, do calor. Foi por isso que decidiu parar de vender o sorriso, o corpo e a companhia. Quando voltou, percebeu que o corpo tão próximo do ideal nacional era um trunfo para conseguir clientes, mas atrapalhava no momento de conseguir um simples namorado. Jéssica está perto da família, do mar, da comida, do calor, mas desde que voltou a Morro Branco não conseguiu a companhia de nenhum dos rapazes pelos quais se apaixonou. É mais uma espécie de ônus com o qual precisa arcar, outra conta atrelada ao fato de travestir-se, de gostar de homens. Percebeu tudo isso logo cedo, em casa. "Você sabe, gay não tem infância."
Assim, preenche seus dias naquele balneário que surge de vez em quando em novela, cuidando da pousada e participando dos campeonatos de vôlei. Faz parte da seleção da cidade vizinha, Cascavel. Treina todos os dias. Mas, apesar das curvas, dos peitos, da voz, joga no time masculino. Não tentou a seleção feminina. Teve medo de não ser aceita por elas. Foi mais fácil, apesar das curvas, dos peitos, da voz, competir entre os homens.
Outra maneira de aplacar os dias sem a atenção de um amor romântico foi intensificar sua presença no antigo lar. Com a autoestima calcada em dinheiro e silicone, Jéssica voltou fortalecida para encarar o pai que não a encarava. Começou a frequentar, todos os dias e às vezes várias vezes ao dia, a cozinha da mãe. Sua atitude inspirou os outros filhos. Hoje, todos se reúnem diariamente às 16h para um café. É quando Dedéia, 71, separa várias xícaras Duralex marrom dourado e as distribui entre filhos, filhas, genros, noras e netos.
Jéssica e Valéria, ainda em nome do pai, vestem-se sem alarido: calças, bonés, cabelos presos. Nada que se relacione com aquilo que será usado à noite, as roupas justas e curtas, batom, brincos compridos. A falta de exuberância também diminui o contraste entre os outros irmãos que vão chegando: Rosália, Celma, Cleudia, Júnior, Dovaldo e João. Todos sentam-se à mesa , alguém chega com um saco cheio de pão, um pedaço de queijo, 300 gramas de presunto. Sentam-se à mesa grande da cozinha e comentam o dia, a praia, os turistas, os estádios que estão sendo reformados, os próximos jogos de vôlei, o início do campeonato europeu, a contratação de Neymar, a televisão de plasma que está na promoção, a promissora entrada de um sobrinho no time do Internacional, de Porto Alegre. Nunca conversam sobre quando o irmão mais velho agrediu tantas vezes as irmãs travestis, sobre quando o pai puxou uma faca para ferir Valéria, sobre o tempo em que ela tinha que pagar uma espécie de aluguel para morar na própria casa. Os assuntos dolorosos são calados, afinal trata-se de uma confraternização diária ("Nosso Natal é todo dia", diz Jéssica). Naquela festa cotidiana, bebem duas garrafas de café já adoçado, comem todos os pães, todo queijo, acaba-se o presunto. Seu João apenas passa, toma um gole, sai. Desvia o olhar. Usa o cordão de ouro com a âncora. Sente saudade do barco, das lagostas, dos peixes, das arraias. Tem certeza de quantas filhas tem. Agora passa parte do tempo em casa, construindo pequenas jangadas. Mas agora apenas elas podem flutuar.          

Fabiana moraes.

Fonte: JC On line.

Amanhã mais um trecho deste Especial- NELSON RODRIGUES.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Reportagem especial- Nelson Rodrigues



Nelson Rodrigues.
http://especiais.ne10.uol.com.br/nelson/img/caderno/galeria/anti/1.jpg

http://www.youtube.com/watch?v=hlbjyP3IoXE&feature=player_embedded

Obs: estes links acima são do vídeo e da galeria de fotos, respectivamente.
Anti-Nelson Rodrigues

Primeiro-ato

Cenário formado por duas grandes fileiras de casas simples, classe média baixa. Fim de tarde. A luz meio vermelha ilumina o pequeno bairro popular da zona norte do Rio de Janeiro. Na rua e nas janelas, estão os tipos que moram ali: mulheres ralham com seus filhos, vendedores passam nas ruas oferecendo frutas, homens vestindo ternos modestos voltam para casa trazendo pães e uma barra de manteiga. Um menino sobrancelhudo de cabeça grande e pernas cabeludas entra em cena. Senta-se à beira da calçada, sob um poste, e começa a ler um jornal. Está acompanhando o folhetim Crime e castigo, de Dostoiévski. Ás vezes o menino suspende a leitura e olha ao redor. Observa a gritaria, os nomes das pessoas (Glorinha, Oswaldo, Dorotéia). Parece impressionado com esse lugar tão diferente daquele onde nasceu (em Recife, o mundo inteiro resumia-se a sua família, ao mar, às frutas de nome engraçado que encontrava na cozinha). Um homem de terno e chapéu se aproxima. Também é sobrancelhudo. É o pai do menino: aquele que trouxe toda a família para a nova cidade. O pai chama o garoto para a casa. Esta já está em cena, à esquerda do palco: sabemos que é o espaço familiar por conta de uma mesa grande na qual estão sentadas onze crianças e uma mulher. O senhor Mário – esse é o nome do homem sobrancelhudo - tosse gravemente e chama os filhos (além de Nelson, o menino da cabeça grande, ele é pai de Milton, Mário Filho, Roberto, Joffre, Maria Clara, Paulinho e Stella). Está com o ar grave. Todos os membros da família estão ali reunidos, inclusive a mãe do menino, Maria Esther. Os nomes de cada um aparecem em placas luminosas colocadas sobre a mesa.
Mário (olhando para todos) – Consegui! emprego, vou trabalhar no Correio da Manhã!
Maria Esther – (colocando a mão no peito)
– Conseguiu? Conseguiu?
Mário (orgulhoso) – É o início de uma nova era, meu amor! Vamos comemorar! Até trouxe ovos para o jantar!
O cenário muda: apagam-se as luzes que iluminavam a rua e acende-se a iluminação mais ao fundo do palco. A plateia vê uma redação, que estava mais recuada. No fundo do palco, vemos o luminoso CORREIO DA MANHÃ. Ouve-se o barulho alto das máquinas de escrever, no ar espalha-se a fumaça dos copinhos de café. O menino da cabeça grande e das pernas cabeludas circula entre as mesas. Observa o pai, que está cercado por vários repórteres. De sua boca nervosa saem alguns nomes e palavras: "Epitácio Pessoa, processo, Artur Bernardes, cadeia, absurdo, Edmundo Bittencourt". Há certa agitação no ar: as vozes vão se alterando e de repente um grupo de homens fardados irrompe o palco. Cercam Mário.
Grupo fardado (falando em uníssono) – Você está preso por injúria. Passará um ano no Quartel dos Barbonos!
O pai sai, escoltado pelo grupo fardado. O menino acompanha a cena de olhos arregalados. As luzes se esmaecem e várias ações começam a acontecer (somente elas recebem um foco específico de luz): Mário entra à esquerda, com uma roupa listrada, de presídio, e sai à direita. No caminho, encontra Maria Esther, que entrou pelo lado contrário. Os dois se olham, tocam no rosto um do outro e seguem até saírem de cena. Os dois retornam, só que agora ela está em adiantado estado de gravidez. Ouvimos o barulho das conversas dos vizinhos, de grades abrindo fechando, um choro de bebê. Finalmente, ouve-se novamente o som das máquinas de escrever. As luzes acendem-se totalmente e revelam novamente a redação, esta um pouco menor que a anterior. No alto, acende-se a placa A MANHÃ – 1925. Mário está no centro do palco, entre as máquinas. Agora usa roupas mais elegantes e fuma um fino cigarro. Dá uma baforada e, contente, grita:
Mário – Comprei um jornal!
Vários homens de camisas brancas e gravatas entram rapidamente em cena e sentam-se à frente das máquinas de escrever. Também entram quatro jovens, todos de fartas sobrancelhas. São filhos de Mário: Milton, Mário Filho, Roberto e Nelson, o menor. O menino não usa mais calças curtas: suas roupas demonstram o avanço da idade. Em meio ao zum-zum-zum da redação, ele atende um telefonema.
Nelson (dirige-se a Milton) – acaba de acontecer um atropelamento em Copacabana! Gente rica!
Milton – E soube que tem outra tragédia por lá, é suicídio de namorados!
Nelson – Suicídio de amantes? Deixa comigo.
O menino corre e sai de cena. As luzes da redação se apagam. Quando acendem novamente, a placa A MANHÃ apaga-se e outra acende-se: CRÍTICA – 1928. A redação está um pouco maior: outros homens entraram em cena, trazendo novas mesas com máquinas de escrever. O menino não se espanta e corre para sua mesa, onde escreve furiosamente. No fundo do palco, vão surgindo os textos que ele datilografa. A plateia acompanha: "BUSCOU A MORTE NAS ONDAS: O IMPRESSIONANTE SUICÍDIO DE UM RAPAZ EM COPACABANA", "O BEIJO DA MORTE", "FLUTUA NAS ÁGUAS O CADÁVER". A luz, mais forte sobre ele, é direcionada para seu irmão, Roberto, que está concentrado, inclinado sobre uma das mesas. Não há máquina de escrever sobre ela. No fundo do palco, tornam-se visíveis algumas ilustrações, todas elas remetendo às tragédias que Nelson relata. A iluminação difusa incide sobre todo o palco, sendo mais forte em Nelson. No momento seguinte, o foco de luz esmaece sobre o rapaz e torna-se mais forte sobre outro repórter, que também está escrevendo. Seu texto surge para a plateia: HÁ UMA GRANDE CURIOSIDADE PÚBLICA EM CONHECER OS MOTIVOS DA SEPARAÇÃO DO CASAL THIBAU JR; TODOS OS DEPOIMENTOS QUE NOS FORAM PRESTADOS SÃO COMPROMETEDORES DA HONRA DA ESCRITORA E MADAME SYLVIA THIBAU SERAPHIM. A luz vai para Roberto. No fundo do palco, a plateia vê o que ele desenha: a imagem de uma mulher esguia, de cabelos curtos e franja em onda. Ela é atendida por um médico, que toca-lhe uma das pernas. A luz torna-se forte sobre toda a redação. Todos trabalham sem parar, mas vez ou outra surge uma conversa.
Roberto – Tenho que me apressar, hoje é aniversário de um ano da minha pequena, Maria Teresa
Nelson – Tua filha tem sorte de fazer aniversário logo depois do Natal, o presente é duplo
Roberto – Tem razão. Diga-me: papai ainda está chateado porque publicamos a matéria do desquite?
A madame Sylvia ligou e pediu para o texto não ser publicado
Neste momento, uma mulher elegante, a mesma Sylvia de cabelos curtos e franja vista no desenho, entra na redação. Dirige-se a Roberto.
Sylvia – Pode me dar dois minutos?
Roberto – É claro, pode falar.
Ela olha para Nelson.
Sylvia – Em particular, por favor.
Nelson levanta-se meio irritado e sai de cena. A mulher está visivelmente nervosa.
Sylvia – Eu não pedi que não publicassem
a matéria?
Saca da pequena bolsa uma arma e atira no peito de Roberto. Ferido, ele segura a arma e cai aos pés da mulher. Alguns repórteres que até então trabalhavam silenciosamente correm até o jovem ensaguentado. Nelson, atraído pelo barulho, volta à cena e corre pelo palco. Abraça o irmão.
Nelson – Roberto! Roberto!
Ele permanece ao lado do irmão, enquanto os outros homens cercam a criminosa, que é agarrada pelos pulsos.
Sylvia – Podem me largar. Eu não faço mais nada. Queria matar o doutor Mário Rodrigues ou o seu filho. Estou satisfeita.
Todos saem de cena. Empurradas pelos repórteres, inclusive por Nelson, as mesas com as máquinas de escrever saem do palco. O nome CRÍTICA se apaga. Outro letreiro se acende. Diz: FUNERAL DE ROBERTO – 1929. Um caixão é trazido para cena pelos mesmos homens, agora vestidos de preto. Entram no palco também várias mulheres, entre elas a esposa de Roberto, que traz no colo sua filha Maria Teresa. Sentado e ladeado por Maria Esther está Mário Rodrigues, que chora. Segura uma edição de Crítica com uma única e enorme foto na capa. Sobre ela, a manchete: BOA NOITE, ROBERTO!
Mário – Essa bala era para mim, eu deveria
ter morrido em teu lugar, filho!
Chora ainda mais. Maria Esther o abraça. Pouco a pouco, o palco vai sendo esvaziado. Saem os amigos, os filhos, o caixão. Apenas Mário e Maria Esther permanecem em um canto do palco. Ele levanta-se e olha para a esposa. Repete:
Mário – Aquela bala era para mim, eu
deveria ter morrido no lugar de nosso filho!
Mário cai e Maria ajoelha-se, desesperada. Sacode o corpo do marido, que não responde. Ela o abraça e começa a chorar. As luzes se apagam. Acende-se apenas o letreiro: FUNERAL DE MÁRIO RODRIGUES, 1930 – UM MÊS APÓS A MORTE DE ROBERTO.


segundo ato

Sala de jantar com alguns objetos luxuosos (vasos, bustos, um quadro de Portinari). Uma grande mesa está ao centro do palco. Sentados, com ar grave, todos de preto, estão os filhos de Mário e Maria Esther. Esta aparece à cabeceira da mesa. O nome de cada membro da família permanece em uma placa com letras luminosas à frente de cada prato: Milton, Mário Filho, Stella, Nelson, Joffre, Maria Clara, Augustinho, Irene, Paulinho, Helena, Elsinha e Dulce. Os nomes de Roberto e Mário Rodrigues estão acesos, mas as cadeiras estão vazias. As luzes não iluminam todo o palco, apenas a grande mesa. Atrás dela, vemos apenas as sombras de vários homens sentados em frente às suas mesas com máquinas de escrever.
Milton – Não posso acreditar que ela foi absolvida. Ela matou nosso irmão e terminou matando nosso pai de desgosto!
Mário Filho – E depois de toda a campanha, de todas as matérias que publicamos!
Nelson (tossindo um pouco) Essa mulher nos tirou tudo! Tudo! Não pode ficar solta!
Milton – Vamos continuar nossa campanha, mas também precisamos nos preocupar com o que está acontecendo no governo. A tentativa de Golpe é cada vez mais possível, Washington Luís está encurralado e há boatos que ele vá pedir demissão. Getúlio é cada vez mais forte. Nosso apoio ao presidente talvez seja nossa ruína.
As luzes iluminam todo o palco: atrás da mesa, vemos com clareza a redação de CRÍTICA (o nome do jornal acende-se novamente. Ao lado, o ano é 1930). Milton, Mário e Neto levantam-se da mesa, tiram o paletó preto e, de camisas brancas, dirigem-se até a redação. Sentam-se às suas máquinas de escrever. O restante da família, ainda à mesa, apenas observa. Novamente, vemos no fundo do palco as notícias que os irmãos produzem: "A PARCIALIDADE DO JUIZ MAGARINOS TORRES TRANSFORMOU NUMA FARÇA O JULGAMENTO", "TROPAS MINEIRAS VINDAS DE LAVRAS ARREMETTERAM CONTA OS SOLDADOS DA UNIÃO EM MUZAMBINHO MAS FORAM DESTROÇADAS". Ouve-se um estrondo. Um grupo de homens fardados entra em cena e começa a jogar papéis e objetos no chão. Todos os Rodrigues, desnorteados, saem de cena. Os homens continuam a quebrar a redação: retiram as máquinas, destroem objetos. O nome CRÍTICA se apaga e não volta a acender durante a peça. Todo o jornal de Mário Rodrigues é destruído. As luzes vão aos poucos clareando a mesa familiar, que está mais à frente do palco. É a mesma mesa, mas o espaço ao redor é diferente: os objetos caros e luxuosos vistos anteriormente não estão mais no palco. Os paletós e vestidos, outrora impecáveis, estão rotos e desgastados. Os rostos, muito tristes.
Maria Esther – Desculpem, filhos. Mas vamos novamente jantar pão com manteiga.
Milton – Não importa mãe. Vamos arrumar emprego e as coisas vão melhorar.
Mário Filho – Ainda estamos tentando recuperar o cofre roubado no empastelamento do jornal. Não sobrou nada, levaram tudo, tudo.
Maria Esther – Ele nunca irá aparecer. E é por isso que eu ainda economizo na manteiga. E é por isso que estou vendendo quase todos os nossos objetos: o piano, os quadros. Escutem: a partir de amanhã o leite ficará apenas para Elsinha e Dulcinha. Maria Clara, Stella e Helena, vocês vão deitar mais cedo. Dormindo, não sentem fome. E vocês, rapazes, precisam arrumar trabalho. Usem as roupas de Roberto, estão mais novas.
Mário Filho – Amanhã vou no Globo conversar com Roberto Marinho. Ele prometeu que vai tentar arrumar um lugar para Milton, Nelson e Joffre também.
Sentado mais ao lado, Nelson volta a tossir, primeiro devagar, depois cada vez mais forte. O corpo sacode e ele leva as mãos à boca. Quando as retira, vê sangue. Toda a família para de conversar. Maria Esther leva uma mão ao peito e com a outra toca em Milton, o mais velho, que está ao seu lado.
Maria Esther – A fome está acabando com todos nós. Nelson, meu filho, você está tuberculoso.

terceiro ato

Grande casa de madeira. Leve neblina sai do alto e dos lados do palco. Alguns homens caminham mais ao fundo usando casacos, cachecóis e toucas de frio. O luminoso agora exibe SANATORINHO POPULAR. Sentado e cercado por alguns rapazes está Nelson, quase irreconhecível com os cabelos mais cheios e a barba por fazer. Ele deve parecer ainda mais magro do que antes e o rosto apresenta-se inchado, denotando o resultado de um procedimento médico que retirou todos os dentes de sua boca, prática comum em pacientes com suspeita de tuberculose naquele 1935. Ele conversa com outro interno.
Homem 1 – Conseguiu terminar? Nelson – A peça? Ainda não. Não é difícil, mas ler e escrever tantas cartas para minha família o Rio tem me tomado todo o tempo.
Homem 2 –Há quanto tempo você está aqui?
Nelson – Três meses. No primeiro eu não senti saudade, no segundo senti tédio, agora estou até gostando.
Homem 1 – Gostar daqui? Está louco?
Nelson – Ora, que outro momento eu teria para ouvir tantas histórias? E meu único trabalho é escrever, não tenho que sair correndo para cuidar de suicidas. Apenas os que estão confinados aqui em Campos do Jordão.
Homem 2 – Sobre o que está escrevendo?
Nelson – Sobre nós mesmos, ora essa.
Súbito, os homens de casaco e cachecol vão saindo de cena, voltando vestidos de blusas brancas, suspensórios e trazendo as máquinas de escrever. Logo todo o cenário torna-se uma redação. Um dos homens vem e ajuda Nelson a tirar a peça de figurino que lhe cobre a blusa branca arregaçada e os suspensórios. Seus cabelos são penteados para trás. O nome SANATORINHO apaga-se e acende-se O GLOBO – 1935. Nelson senta-se à frente das filas de máquinas e começa a escrever. Ao seu lado, há uma mesa vazia, sem máquina de escrever. Entra em cena uma jovem de cabelos escuros e roupas recatadas. Nelson para de datilografar e volta-se para ela.
Nelson (sorriso encantador) – quem és tu?
Elza (seca, sem olhar para o rapaz) – a nova secretária do Dr. Roberto
Nelson – E qual tua graça?
Elza (olhando finalmente para Nelson, irônica) – Olha, sei de tua fama. Já me alertaram, te conheço. Comigo, só casando.
O telefone toca e alguém chama por Nelson. Ele atende feliz, olhando para Elza, e de repente sua expressão muda. Fica cabisbaixo. Desliga o telefone.
Elza – O que houve? Estás lívido!
Nelson (quase chorando) – É a morte branca... Eu passei para Joffre. Por minha causa, Joffre está tuberculoso. É minha culpa!
Elza levanta-se e abraça Nelson. As luzes se apagam, inclusive o letreiro de O GLOBO. Vemos a entrada de outras pessoas em cena: os repórteres, que colocaram casacos pretos, e a família Rodrigues. Milton e Mário Filho trazem um caixão. Acende-se o luminoso: FUNERAL DE JOFFRE – 1936. Em meio ao choro das irmãs e de Maria Esther, ouvimos a voz de Nelson, que continua abraçado a Elza:
Nelson – Passei a morte branca para meu irmão, fui eu, fui eu, é minha culpa!
As luzes esmaecem. Os repórteres e a família Rodrigues saem do palco, levando aquele que é o terceiro caixão visto na peça. Restam apenas Nelson e Elza. Maria Esther e Mário Filho retornam ao palco: ajudam os dois a tirarem os casacos de trabalho. Maria ajuda Elza a colocar um véu de noiva, enquanto Mário Filho ajuda Nelson a vestir um paletó com flor na lapela. Afastam-se um pouco e dizem, juntos.
Maria Esther e Mario – Eu vos declaro marido e mulher.
Nelson, que olhava para Elza com amor, volta a tossir. As luzes se apagam e escutamos apenas a voz feminina da recém-casada: Tua tuberculose está aí. Terás que voltar ao sanatorinho, meu amor.


quarto ato

Casas simples, iguais às do primeiro ato. É o bairro de Engenho Novo, Zona Norte carioca. O ambiente mostra uma sala de estar com uma vitrola, uma mesa escura com um jarro repleto de flores brancas. Elza cuida da casa caprichosamente: limpa os móveis, varre o chão. Está grávida. Nelson, suado e com cara de cansando, entra em cena. Quando vê Elza, levanta as mãos e sorri.
Nelson – Acho que vai dar certo. Vai dar certo!
Corre em direção à mulher e tropeça em uma vassoura.
Elza – Cuidado, meu filho. Não enxergas bem desde que sofreste aquela hemorragia, não esquece, presta atenção.
Nelson – Ora, eu estou ótimo.
Elza – O doutor Paulo disse que perdeste quase metade da visão, é ótimo? Nelson – Não exagere, amor. Foi apenas uma parte, uns 30%, não é nada. Mas não é sobre minha quase cegueira que quero falar, filha. Consegui deixar a peça com Mário de Andrade, ele vai ler e recomendar para os amigos!
Elza – Espero que consigas. Estás escrevendo esse texto com tanto cuidado que às vezes esqueces que vais ser pai.
Nelson – Não diga isso, meu amor. Joffre é nossa nova jóia
Nelson senta-se à mesa onde está uma máquina de escrever. Elza sai de cena enquanto ele tecla rapidamente. Ela volta, sem a barriga, segurando um bebê nos braços. Nelson levanta-se sorrindo e abraça os dois.
Nelson – Vamos, vamos! Estamos atrasados. O Teatro Carlos Gomes fica longe!
Os dois saem de cena e o luminoso acende. Nele se lê: Estreia de A MULHER SEM PECADO, DEZEMBRO DE 1942. O palco fica vazio, com apenas o luminoso atraindo a atenção do espectador. Escutamos palmas meio fracas. No fundo de cena feito tela, notícias voltam a surgir: "Uma pura e simples coleção de horrores"; "A peça é formidável!" ; "Leviana e espirituosa". As palmas cessam. Nelson, Elza e Joffre voltam à cena. Ele está cabisbaixo e irritado.
Nelson – Não entenderam nada, nada! Estão acostumados a essas bobagens da Cinelândia! Mas eu vou escrever outra peça, e não me importo se novamente não entenderem nada. Preguiçosos!
Volta e senta-se à máquina. Elza sai e volta com Joffre, agora um pouco maior, com cerca de um ano. Ele grita.
Nelson – Terminei! Podes ler e ver se há erros?
Elza – Tudo bem. Segura o Joffre.
Ela começa a ler o texto enquanto Nelson segura, ansioso, a criança. Ela para, com cara de confusa. Olha o marido.
Elza – Mas que estranho. Esse texto não faz o menor sentido. Nelson, andou bebendo? Você não vê que isso é estranho para uma peça?
Ele ri, pega o texto e sai de cena, falando alto.
Nelson – Vou mostrar ao Manuel Bandeira! Ele vai entender, vai entender! Me espere cheirosa para o jantar!
Elza sai pelo outro lado levando Joffre. No fundo do palco, surge o texto: NELSON RODRIGUES É POETA. TALVEZ NÃO FAÇA NEM POSSA FAZER VERSOS. EU SEI FAZÊ-LOS. O QUE ME DANA É NÃO TER COMO ELE ESSE DOM DIVINO DE DAR VIDA ÀS CRIATURAS DA MINHA IMAGINAÇÃO. VESTIDO DE NOIVA, EM OUTRO MEIO, CONSAGRARIA UM AUTOR. QUE SERÁ AQUI? SE FOR BEM ACEITA, CONSAGRARÁ... O PÚBLICO. Nelson entra em cena trazendo uma cadeira. Senta-se de costas para o palco, observando o texto. Três mulheres entram em cena: são Alaíde, Glória e Madame Clessy, personagens de Vestido de noiva. Sobre cada uma acende-se um luminoso trazendo os respectivos nomes.
Alaíde – Sua peça acontece em três tempos diferentes, como vai ser no palco? Como vou estar de noiva em uma cena e segundos depois estar com outra roupa? Isso é coisa para cinema!
Glória – É peça para ser lida e não para ser vista! Sei não...
Madame Clessy – Ora essa, quanta bobagem. Sua peça será espetacular, Nelson. Você vai entrar para a história.
As três dão um passo atrás e somem na escuridão do fundo do palco. Seus nomes se apagam e surge o luminoso: VESTIDO DE NOIVA – ESTREIA 28 DE DEZEMBRO DE 1943 – TEATRO MUNICIPAL. Um barulho enorme toma conta do ambiente: aplausos, uivos, assovios. Nelson continua de costas para o palco. Levanta-se e faz uma reverência em direção ao luminoso. Depois, vira-se para o público segurando uma pequena placa onde se lê: MAIS APLAUSOS, POR FAVOR. A tela no fundo do palco é tomada pela palavra GÊNIO!. Nelson, sorriso largo, agradece à plateia e as luzes se apagam.


quinto ato

Acende-se o luminoso: DIÁRIOS ASSOCIADOS, 1944. A redação vista anteriormente recebeu mais homens, algumas poucas mulheres e mais máquinas. Nelson chega com uma caixa, olha o novo ambiente de trabalho e senta-se à uma mesa posta ao centro. Começa a escrever e levanta-se duas vezes, em um curto espaço de tempo, para pegar um café (mesinha à esquerda do palco). Na terceira vez que vai até a garrafa térmica, um jovem o aborda. É Freddy Chateaubriand.
Freddy – Primeiro dia? Animado?
Nelson – Sim, sim, entusiasmadíssimo! E como vai O Jornal?
Freddy – Já tivemos dias melhores. Vendemos apenas três mil exemplares por dia. Acho que não vai demorar para fecharmos as portas.
Nelson – Terrível, terrível!
Freddy – Minha última tentativa será comprar um folhetim francês.
As pessoas ainda se animam com essas histórias absurdas.
Nelson – Comprar? Ora, posso fazê-lo.
Freddy – Você?
Nelson – Claro!
Freddy – Não sei. Teatro é uma coisa, folhetim é outra. Façamos o seguinte: escreva seis capítulos e entregue ao Leão Gondim. Se ele aprovar, publicaremos
Nelson corre de volta à máquina. Um dos repórteres vem até ele e põe uma peruca ruiva, meio chanel, em sua cabeça. Acende-se o luminoso: SUZANA FLAG. Ele volta a escrever, um cigarro na boca. Tira rapidamente seis páginas. Entrega a um dos repórteres, que sai de cena pela direita. Nelson tira a peruca e continua a escrever. Levanta-se e vai buscar outro café. Freddy vai entrando e o encontra próximo a mesinha. Abre os braços, a expressão feliz.
Freddy – Sensacional!
Ontem vendemos quase 30 mil exemplares!
Meu destino é pecar é genial!
As pessoas adoram esse monte de adúlteros que você inventa!
Viva Suzana Flag! Viva Nelson!
Tenho uma boa notícia: vamos lançar todos os capítulos em um único livro!
Nelson – Excelente, excelente.
Estou mesmo precisando.
As dívidas não param de chegar.
Elza está preocupadíssima
Freddy (sem escutar Nelson) –
Ah, sim, pode começar a pensar em outro folhetim.
O tio Assis está animadíssimo!
Nelson ouve. Começa a tossir. A tosse vai se agravando e ele leva um lenço às mãos. Encosta na boca e quando olha há sangue no tecido.
Freddy – Tua tuberculose está de volta
Nelson – Sei.
Mas apesar de tanto sucesso, não tenho um tostão para me internar.
E Elza está grávida de novo.
Aliás, é um negócio espetacular, está grávida há quase dez meses!
Freddy – Não se preocupe. Voltarás para o Sanatorinho e eu pagarei teu tratamento, Nelson.
As luzes se apagam.

sexto ato

Surge na tela ao fundo do palco um texto de jornal. O título: TRAGÉDIA OU FARSA? Abaixo, lê-se: "chula" "primária", "grosseira", "miséria vocabular", "um equívoco como tragédia". As luzes vão acendendo e vemos a sala da casa de Nelson e Elza. Um garoto, Joffre, brinca no chão. Um berço está ao lado da cama do casal, à esquerda do palco. Os dois estão sentados meio de costas para a plateia, lendo o texto. Começam uma conversa, virando-se um pouco mais para a plateia.
Nelson (irritado) – Mas não é possível!
Não é possível!
O Álvaro Lins está completamente equivocado!
Não entendeu nada, nada!
Elza – Acalme-se, meu amor.
Assim você vai acordar Nelsinho.
E você ainda está se recuperando da doença, fique calmo, não comece a tossir.
Nelson – Estão loucos!
Como podem dizer isso?
Como Álvaro pode colaborar assim com a censura, com essa censura ridícula imposta pelo Dutra?
Eu elogiando o incesto?
Álbum de família é uma peça bíblica!
Esse Álvaro não entenderia nem Édipo rei numa condensação do Reader's digest! Vou fazer de tudo para liberar a peça e ainda escreverei outra!
Volta-se para sua máquina de escrever. O que ele datilografa vai surgindo também na tela/fundo do palco. ISMAEL: você me esperava, Virgínia. VIRGÍNIA (com espanto): esperava você, sempre. só você chega, só você parte. o mundo está reduzido a nós dois - eu e você. agora que teu filho morreu. ISMAEL: mas não foi isso o que você quis?
Elza, que estava lendo, vira-se para Nelson.
Elza – Mais um assassinato?
Escreverás mais incestos?
E o negro com nome bíblico?
Casado com uma loura que mata os filhos?
A censura nunca te deixará em paz.
Nelson – Anjo negro é uma peça necessária!
Chega de mostrar no palco o negro como o moleque gaiato!
Meu personagem tem dignidade dramática!
A campainha toca. Elza levanta-se e vai atender. É um homem branco, apenas o rosto pintado de negro, que entrega um documento. É próprio personagem Ismael. Elza lê, põe uma mão no coração e olha o marido.
Elza – Nelson, tua peça foi censurada.
Nelson levanta-se, vai até o berço e embala Nelsinho. Volta à mesa, acende um cigarro.
Nelson – Vou fazer de tudo para liberar a peça e ainda escreverei outra!
Começa a escrever e novamente suas palavras podem ser lidas no fundo do palco: D. EDUARDA: Deus fez tua vontade! traí meu marido! desce e vem chamar tua mãe de prostituta! MOEMA - prostituta! A campainha toca. Elza levanta-se e vai atender. É uma mulher com roupas antigas e muito pálida. É a própria D. Eduarda. Entrega um documento.
Elza – Meu amor.
Álbum de família foi censurada.
Mas te acalma, te acalma:
Diz aqui que Anjo negro poderá finalmente ser encenada.
Nelson (resignado, triste) – com Vestido de noiva, eu conheci o sucesso.
Com as peças seguintes,
perdi-o para sempre.
O meu teatro é desagradável, mas não importa: continuarei escrevendo sobre pessoas normais.
As luzes se apagam.


sétimo ato

Penumbra. É possível ver duas pessoas se movimentando no cenário: sai o berço de Nelsinho, entra uma poltrona, um espelho comprido, sai a máquina de escrever e sobre a mesa é colocado um vaso com rosas vermelhas. Uma mulher baixinha, de chapéu coquete, senta-se e começa a ler uma revista. A campainha toca. Ela levanta, chega até o lado direito do palco e abre uma porta imaginária. Seu nome é Nonoca. Ela se joga nos braços de Nelson.
Nonoca – Que coisa, meu amor, te espero há mais de uma hora!
Nelson – Nonoca, meu anjo, perdão.
Encontrei com o Samuel Wainer no Leblon, talvez finalmente arranje um emprego.
Há quase um ano estou sem nada, você sabe
Nonoca – Pelo menos houve tempo para pensar nas peças
Nelson – Se todas seguirem o rumo de Dorotéia,
não sei. Tanto trabalho para vê-la no palco por apenas 13 dias. Treze dias! E você estava estupenda, estupenda! Mas a verdade é que estou falido
Nonoca (abraçando e cobrindo Nelson de beijos)
– Foi o maior presente que já recebi, meu amor
Alguém bate violentamente à porta imaginária (som gravado). É Elza, que traz duas crianças: Joffre, que está com oito anos, e Nelsinho, com quatro.
Elza – Nelson! Nelson! Abre esta porta!
Te vi entrar aí! Sei de tudo, abre já esta porta!
Nonoca corre e se esconde atrás da poltrona. Nelson permanece parado, atônito.
Elza – Abre já esta porta!
Nelson obedece a esposa. Ela adentra a sala, olha ao redor (passa os olhos por Nonoca, mas é como se ela estivesse invisível) e começa a falar.
Elza – Eu sei que ela está aí. Eu sei que pagas por este apartamento para receber esta mulher!!
O que estás fazendo? Um homem doente, com filhos, desempregado! É para isso que cuido de ti? !
É para isso que te dei dois filhos? Sabes que Joffre pode estar tuberculoso como o pai? Como o tio morto? Quero que voltes para casa agora!
Nelson passa à frente de Elza e dirige-se até a porta. Ela o segue com as crianças. Todos saem de cena. As luzes tornam a deixar o palco na penumbra. Vão entrando várias pessoas em cena: retiram objetos da sala e trazem mesas com máquinas de escrever. São os repórteres, que sentam-se e começam a trabalhar. O luminoso acende novamente: ULTIMA HORA – 1951. Nelson volta e senta-se à mesa. Fuma. É a maior redação vista na peça: mais oito mesas foram levadas ao palco. Agora, a quantidade de mulheres também é maior. Quando passam por Nelson, ele as acompanha com o olhar entre curioso e irônico. Uma delas, muito jovem, o aborda:
Estagiária – Olá, o senhor é novo aqui?
Nelson (com ar risonho) – Novo é uma palavra que há muito não se adequa a mim, minha cara. De todo jeito, há três dias estou trabalhando aqui, não percebeu?
Estagiária – Engraçado, eu tenho impressão de que o conheço
Nelson (entediado) – Se é só impressão, considera-te abençoada, meu anjo
Um homem mais novo, elegante, dirige-se até Nelson e a estagiária se afasta. É Samuel Wainer, dono do jornal.
Samuel – Nelson, preciso falar com você. Teu texto é poético demais para o dia a dia do jornal.
Já não se fazem mais notícias com tantas exclamações, meu caro. Nelson (interrompendo, rindo) – O copy-desk está matando os jornais, Samuel, presta atenção. Samuel – Talvez fosse melhor você escrever uma coluna, não acha? Sobre as notícias que saem no jornal... você comentaria os acontecimentos, do teu jeito. Que tal? Andei pensando: podia se chamar "Atire a primeira pedra". Nelson – Se é sobre as notícias, melhor outra coisa, algo que lembre essa realidade... Pode ser "A vida como ela é...". Com reticências, é claro Samuel – Reticências? Nelson (bem-humorado) – Vai querer copidescar até o título da coluna, Samuel?
O dono do jornal sai sorrindo e Nelson vai para a máquina de escrever. Olha para o jornal, lê uma notícia e começa a escrever. Para no meio. Arranca a página. Fala consigo mesmo.
Nelson – Mas que droga de texto. Aliás, que droga de notícia. Eu posso criar realidades bem melhores do que esta!
Volta a escrever ignorando o jornal do dia e a tela no fundo do palco vai mostrando novamente sua produção. A plateia acompanha: VIERAM OS DOIS CAMINHANDO, LADO A LADO, POR ENTRE IMAGENS DE SANTOS NAS PAREDES. QUANDO CHEGARAM NA RUA, EUZÉBIO DESPEDIU-SE, PELA SEGUNDA VEZ: - PASSAR BEM, PASSAR BEM. PENTEADO DEIXOU QUE ELE SE VIRASSE, E, PELAS COSTAS, DEU-LHE TRÊS TIROS. HOUVE CORRERIAS, ATROPELOS. EUZÉBIO MORREU ALI MESMO, NA CALÇADA. Do meio da redação, Samuel grita:
Samuel – Nelson, Nelson! Tua coluna é um sucesso!
Não tem lotação nesse Rio de Janeiro onde os passageiros não estejam agarrados com o jornal!
E o melhor: o Carlos Lacerda está fulo da vida com teus textos, diz que eles querem acabar com a família brasileira!
Nelson vira-se, sorri e volta novamente para a máquina. Continua a escrever. Ao seu redor, vemos vários de seus irmãos também escrevendo, são todos também funcionários do Ultima Hora: estão Helena, Elsinha, Dulcinha, Maria Clara, Stella, Augustinho e Paulinho. O telefone toca e Maria Clara atende. Chama o irmão.
Nelson – É homem ou mulher?
Maria Clara – Mulher
Nelson – Então estou indo!
Sorridente, ele atende a ligação, mas logo sua expressão vai ficando séria. A luz torna-se mais forte sobre ele e os repórteres continuam batendo a maquina, só que sem tocar nas teclas. No silêncio, ouvimos apenas a voz de Nelson:
Nelson – Já te disse que reconheço apenas
Paulo César. As meninas não são minhas.
Não terás um tostão meu continuando a me perseguir.
Desliga o telefone. Está lívido. Fala para si mesmo, enquanto acende um cigarro:
Nelson – Ai de mim se a Yolanda leva esta três crianças até Elza. Ai de mim que estou falido se estas três crianças agora reclamarem um pai.

oitavo ato

As luzes se apagam. Redação sai de cena (móveis levados pelos repórteres). Volta o assento usado por Nelson durante estreia de Vestido de noiva. Surge o luminoso: SENHORA DOS AFOGADOS – TEATRO MUNICIPAL, RIO DE JANEIRO. ESTREIA: 1954. Nelson está sentado em meio ao palco. À direita e à esquerda, na boca de cena, estão os atores que antes povoavam a redação. Usam roupas elegantes. Ouvimos (mas não vemos) os personagens da peça falar: VIVERÁS COM ELAS... E ELAS DORMIRÃO CONTIGO... E NÃO ESTARÁS SOZINHA NUNCA. SEMPRE COM TUAS MÃOS... QUANDO MORRERES, ELAS SERÃO ENTERRADAS CONTIGO. Silêncio. Nelson olha para os dois lados e levanta-se, esperando a reação após o fim da encenação. De repente, o grupo do lado esquerdo (1) começa a aplaudir, enquanto o grupo do lado direito (2) começa a vaiar. Cria-se uma confusão de vozes.
Grupo 1 – Gênio! Estupendo!
Grupo 2 – Tarado! Tarado! Doente!

Nelson mostra-se surpreso e começa a gritar também.
Nelson – Burros! Zebus!
As vozes do grupo 2 se sobressaem, enquanto o grupo 1 continua a falar, agora em tom mais baixo. Nelson começa a percorrer o palco enquanto o grupo 2 o segue, ainda chamando-o de tarado. Vários luminosos começam a acender: trazem títulos de peças que Nelson escreveu, assim como seus locais de estreia: Perdoa-me por me traíres, Teatro Municipal, 1957; Viúva, porém honesta, Teatro São Jorge, 1957; Os sete gatinhos, Teatro Carlos Gomes, 1958; Boca de ouro, Teatro Federação de São Paulo, 1960; O Beijo no asfalto, Teatro Ginástico, 1961; Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas Ordinária, Teatro Maison de La France, 1962. Enquanto isso, ecoam mais alto os gritos de "tarado!", enquanto lá e cá a plateia consegue ouvir, mais baixo, os gritos de "gênio". Nelson vira-se para o grupo 2 e fala:
Nelson – Morbidez?
Sensacionalismo?
Vocês não percebem: a ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz.
O personagem é vil para que não o sejamos.
Para salvar a plateia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos, e, em suma, de uma rajada de monstros.
Os dois grupos calam-se e saem do palco andando para trás, ainda observando o autor. Nelson permanece sozinho, de cabeça baixa. As luzes se esmaecem e, na penumbra, a plateia vê entrar em cena, trazidos pelos atores, a mesa, duas cadeiras e um berço. São os móveis da casa de Nelson. Elza entra e senta-se. Nelson continua de cabeça baixa.
Elza – Tens certeza?
Nelson – Não. Tenho.
Elza – Quem é ela?
Nelson – Lúcia.
Elza – Lúcia?
Lúcia Cruz Lima?
Vais me deixar por uma grã-fina?
Nelson finalmente levanta a cabeça, mas não olha para Elza. Ela levanta-se e sai de cena. Com as luzes acesas, vários atores entram trazendo objetos caros, luxuosos: abajures, mesinhas, jarros floridos. Uma mulher jovem, pequena, magra e de cabelos pretos entra em cena. Está grávida. Nelson a abraça. As luzes se esmaecem e eles permanecem abraçados.
Nelson – Teus pais me odeiam. Eu te amo.
Lúcia – Quando nosso filho nascer, entenderão
Nelson – Talvez.
Mas são como todos: para eles, não passo de um tarado
Lúcia (gemendo) – Nelson?
Nelson – Sim, meu anjo?
Lúcia – Leve-me ao hospital.
Nelson sai com Lúcia. Do lado direito do palco, um berço, até então sem iluminação, aparece sob a luz. Lúcia entra e coloca um bebê ali. Nelson chega em seguida. Debruça-se sobre o berço, calado. Vira-se e olha para a mulher.
Nelson – O que eles disseram?
Lúcia (chorando) – Que Daniela sofreu paralisia cerebral.
Que Daniela não conseguirá nunca se movimentar.
Que Daniela jamais poderá enxergar.
Nelson (gritando) – Não pode ser, esse médico é um burro, um burro, isso não é verdade
Lúcia – Eles não podem fazer mais nada.
Eu ofereci um dos meus olhos, queria que operassem ela, colocassem nela, mas não adianta. Não adianta.
Nelson volta-se para o berço. Continua a chorar, debruçado.
Nelson – Minha filha, minha filha, meu anjo, minha flor.
Não merecias isso, não merecias nascer sem tua estrela.
As luzes se apagam e apenas o choro de Nelson é ouvido


nono ato

Barulho de chuva. Ouvem-se alguns trovões. A sala da família Rodrigues domina a cena: na grande mesa, estão sentados Maria Esther, na cabeceira, e seus filhos. Os nomes estão colocados de modo que a plateia saiba quem é quem. O lugar de Mário Filho está ineditamente vazio. Agora, é uma mesa com três pessoas a menos. Um dos irmãos, Paulinho, está de cabeça baixa, os punhos sobre a mesa. Não participa da conversa. O clima é de tristeza.
Maria Esther – Mas por que o mandaram de volta para casa?
Nelson – Não sei, mãe. Mário pediu para fazerem exames, sentia dor, mas o médico disse que não era nada.
Milton – Morreu por causa do erro dos outros, morreu sabendo que ia morrer, sabia que estava enfartando, sabia.
Nelson – Sabia .
O telefone toca e Helena vai atender. Ouve em silêncio. A família conversa entre si, sem dar atenção a ela. Helena volta. Senta-se novamente e fala algo, discretamente, a Nelson. Ele a ouve e baixa a cabeça. Helena levanta-se e dirige-se a Maria Esther:
Helena – Mamãe, está quase na hora do seu remédio e é preciso descansar.
Eu lhe acompanho.
Maria Esther – Não há necessidade.
Eu sei que alguma coisa aconteceu.
Helena (olhando para Nelson e os outros irmãos. Segura da mão da mãe) – Aconteceu.
O prédio de Paulinho desabou por causa da chuva. Ele, Maria Natália, Ana Maria e
Paulo Roberto, a família toda, desapareceram. Dulce, a mãe de Maria
Natália, também estava lá, comemorando o aniversário da filha.
Nelson (colocando a mão no coração) –
Mas como pode? O que é isso?
Helena – Uma pedra deslocou-se do morro e arrastou duas casas e o prédio de nosso irmão.
Nelson (chora) – Papai morre logo depois de Roberto, Paulinho morre logo após Mário, nessa família ninguém pode mais morrer, não pode
Paulinho, que estava quieto, levanta-se e sai de cena. Todos olham para ele. As luzes esmaecem e dois atores trazem um caixão à cena. Colocam-o sobre a mesa. Toda a família se levanta. Olham para o caixão. Maria Esther é abraçada por Dulce e Helena.
Maria Esther – Parece que nunca mais deixarei de usar preto nesta vida.
Ela vai saindo de cena seguida pelos filhos, que levam o caixão. Enquanto o grupo sai, a luz esmaece. Surge a figura de um homem fardado, repleto de medalhas, que entra à direita do palco. O homem tem o rosto meio vincado, a boca desenhada para baixo e o olhar muito sério. É o presidente Garrastazu Médici (no poder entre 1969 e 1974). Nelson surge logo depois, vindo do lado contrário. Ao vê-lo, o rosto do presidente torna-se menos duro. Abre um quase sorriso. Cumprimentam-se.
Médici – Nelson, Nelson, há tempos quero encontrá-lo! Gostaria de agradecer todo o apoio, caro amigo.
Nelson – Não é apoio, caro presidente, apenas não entendo essa esquerda brasileira que brada contra a fome do Nordeste enquanto toma um gigantesco sorvete!
Preocupa-se mais com a Guerra do Vietnã do que com o mendigo do outro lado da rua!
Médici (rindo e dando um tapinha no ombro do colega)
– Gostaria muito de ter sua companhia na próxima semana, vamos comemorar o 10 aniversário do estádio do Morumbi.
Nelson – Eu li. São Paulo versus o Porto.
Médici – Sim, o que lhe parece?
Nelson – Com toda honra, caro presidente.
Os dois saem e Nelson volta com a mesinha ocupada pela máquina de escrever. Outro ator traz uma cadeira. Ele senta-se e começa a escrever. A plateia acompanha: AS ESQUERDAS TIVERAM TUDO: PODER, DINHEIRO, ARMAS. NÃO FIZERAM NADA. MINTO: FIZERAM O CAOS. E OS SOCIALISTAS QUE ANDAM POR AÍ TÊM APENAS A VOCAÇÃO E A NOSTALGIA DO CAOS (24/8/1971). Enquanto ele escreve, um rapaz muito magro e barbado entra em cena. É Nelsinho, O filho caçula, já crescido. Ele observa o que o pai escreve e sorri. Põe a mão no ombro de Nelson, que então nota sua presença.
Nelsinho – Velho. Vou sair de casa. Não posso mais dividir o mesmo espaço com Joffre.
Nelson (atônito) – Nelsinho, o que você está dizendo?
Nelsinho – Vou alugar um apartamento. Vai ser mais difícil ser seu motorista agora.
Nelson (levantando-se) – O que está acontecendo? Isso tem a ver com aqueles seus amigos comunistas? Você ainda continua com isso? Fique longe dessa loucura
Nelsinho – As coisas estão complicadas, pai.
É melhor assim.
Nelson – Filho, guerrilha urbana não é batalha de confete.
Nelsinho – Eu sei. Mas não dá para ficar parado olhando o que os militares estão fazendo com o País. Nunca se torturou tanta gente.
Nelson – Mas isso é um descalabro, não vê?
Imensa bobagem inventada por esses eternos candidatos ao sofrimento. O próprio Médici me garantiu, me deu sua palavra de honra: não há tortura.
Nelsinho ri afetuosamente, abraça o pai e sai à esquerda do palco. Nelson continua de pé olhando o filho se afastar. Um telefone colocado à direita do palco toca e uma jovem vem atender. É Heleninha, secretária de O Globo, nova companheira de Nelson. Ela atende e ouve, silenciosamente. Desliga e vai para perto de Nelson.
Heleninha – Meu amor, era Joffre, seu filho.
Pegaram Nelsinho.
Nelson (põe a mão no coração) – Não vão fazer nada com ele, não vão, o Médici me garantiu, me deu sua palavra de honra: não há tortura.
Nelson permanece com a mão no coração enquanto com a outra segura a mão de Heleninha. Nelsinho e Médici entram em cena, o primeiro à esquerda do palco, o segundo à direita. Chegam à frente um do outro. Olham-se. Médici toca suavemente o rosto de Nelsinho, o peito, os ombros. Todos os locais que o presidente toca ficam sujos de vermelho. Nelsinho e Medici olham para Nelson, que observa, chocado, os dois. Nelsinho e Médici dão as costas um para o outro e saem de cena. Nelson se abraça a Heleninha, e, enquanto escorrega até os pés da mulher, as luzes se apagam. A plateia vê silhuetas entrando em cena: trazem a mesa grande, cadeiras, um jarro com flores. A família Rodrigues senta-se. Os nomes estão postos à frente de cada um. Agora, estão vazios os lugares de Milton, o irmão mais velho de Nelson, e o da matriarca, Maria Esther. A mesa difere-se bastante daquela vista no início da montagem. São sete pessoas a menos (Roberto, Mário Pai, Mário Filho, Joffre, Paulinho, Milton e Maria Esther). Nelson olha as irmãs, que estão olhando para ele, com uma expressão vazia no rosto.
Nelson – Eu falei: quando um Rodrigues morre, leva outro consigo. Milton levou mamãe.
Dulcinha (olha o irmão) – Então precisamos passar um tempo sem morrer.
Nelson (quase ri) – Estou me cuidando, estou me cuidando.
Maria Helena – A hemorragia foi forte,
Nelson, você sabe. Você foi internado várias vezes nos últimos meses e ainda assim continua a fumar. Aquela enfermeira cuidou bem de você?
Nelson – Heleninha não era apenas uma enfermeira, você sabe, não a trate assim.
Dulcinha – Ela é passado. Você fez bem em voltar para Elza. Ela nunca o deixou.
Nelson – Porque o casamento é assim, eterno.
A única coisa que dura para além da morte é o amor.
Maria Helena – Não se dependesse de você.
Nelson – Nelsinho nos uniu de novo.
Maria Helena – E ele, como está?
Nelson – A única promessa que me fizeram é que o deixarão sair da prisão para ver o filho nascer.
Todos da família levantam-se e apenas Nelson permanece em cena, sentado à mesa. Tem a aparência extremamente cansada. A mão continua no peito e ele está cabisbaixo. Nelsinho entra e traz uma máquina de escrever. Coloca em frente ao pai. Sorri para ele, que levanta-se e abraça o filho. Nelsinho sai e, prestes a sair do palco, vira-se. Aplaude o pai e sai de cena. Nelson senta-se de costas para o público e começa a escrever. O seu texto pode ser lido por toda plateia: "Morri com 68 anos. Durante essas quase sete décadas, me apaixonei cerca de 1.097 vezes. Odiei umas 30. Dentre as pessoas e coisas que amei: Elza e os meninos, minhas peças, cigarros ordinários, Lúcia, música barata, criança desdentada, Roberto, Mário e Joffre, o Fluminense, mulher bonita e burra, dramalhão, purê com carne moída, Dostoievski, redações, Yolanda, Nonoca, visitar cemitério, ficar só, ficar acompanhado, ir ao estádio, Daniela, o Otto Lara, a Zona Norte, o humor, a inocência, a exclamação. Dentre as coisas que odiei: luar, chicória, cumprimento, varizes, teatro dos outros, samba, trabalho, Sylvia, psicanalistas, sujeito inteligente, qualquer político. Como veem, detestei pouca coisa frente a tudo que emocionou meu coração. Ele parou sete vezes na madrugada de 21 de dezembro de 1980, um domingo, dia de clássico. Me avisou: estava roto e velho demais. Mas ainda me deu tempo de me apaixonar no fim da vida: minha obsessão foi a liberdade do meu filho. Foi uma felicidade, ali, quieto, no hospital, quando ela chegou para me levar. Estava tão bonita quanto eu me lembrava: cadeiruda, os peitinhos empinados, a linda filha da lavadeira, a menina que eu espiava lá de cima do muro, diziam que era louca, mas não importava. Eu sempre detestei gente normal."

Fonte: JC On line

Amanhã teremos mais uma parte deste especial- Nelson Rodrigues, aguardem...

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Vestido de noiva




Nelson Rodrigues.



http://youtu.be/YVfCq50kBv4


http://especiais.ne10.uol.com.br/nelson/img/caderno/galeria/vestido/1.jpg

Obs: os links acima são do vídeo vestido de noiva e pra galeria de fotos.

Alucinação

Cinco da manhã, dezoito de dezembro de 2010. Rogério estava acordado. Não dormiu a noite toda. Há três dias era assim. Mas a festa do seu casamento aconteceria logo mais e havia muita coisa para resolver: levar a bebida para o local da recepção, buscar a roupa, pagar aos músicos, também à moça do bufê. E ele ainda não havia terminado de pintar o apartamento. Ganharam o novo lar da família dela. A festa para 200 convidados também. Mas quem estava organizando tudo era ele, queria as coisas do seu jeito. Não era o dinheiro alheio que iria fazê-lo ficar em segundo plano. De todo jeito, não iria se preocupar com isso agora, havia muita coisa para fazer. Ou só uma outra coisa. Só uma. Nessa outra ele pensava, mas tinha medo. Pensava e tinha medo porque, se optasse por ela, não precisaria mais pintar a nova casa (faltava escolher a cor de uma parede da sala), nem se preocupar com músicos, com roupa, com a moça do bufê. Apenas com ele. E com Renata.
Era sua mulher há 24 horas, casaram-se no civil e agora o Damascena do nome dele estava incluído no nome dela. Uniu-se à garota que havia conhecido há quase 20 anos em uma escola de Ribeirão. Passaram muito tempo sem se ver. Quando a reencontrou, tinha acontecido muita coisa, algumas boas, outras de destruição lenta e certeira. Reconheceu os olhos grandes e castanhos, o cabelo meio ondulado, a timidez. Decidiu que iam namorar (voltou a pensar: se fosse uma coisa, a parede podia ser azul claro; se fosse a outra coisa, não haveria qualquer cor). Um, dois, três encontros: estavam namorando. Isso foi há três anos e ela agora era sua mulher, o seu nome misturou-se ao nome dela 1.095 dias depois de reencontrá-la. Naqueles mil dias ela virou advogada, começou a trabalhar como defensora pública, ele ia bem como supervisor de vendas de motos e se dava com o pessoal da empresa (voltou a pensar: se fosse uma coisa, a parede podia ser igual ao resto da casa; se fosse outra, não haveria casa). É verdade que às vezes as brincadeiras eram meio chatas, mas a culpa era dele. Quem mandou falar demais? Falou demais porque queria ser simpático por ali. Aí contou sobre uma das destruições lentas e certeiras. Falou sobre Laura, que ele tinha amado e com quem queria casar. De como ela era Ela, a mulher de sua vida. Contou sobre quando descobriu que ela estava ficando com seu melhor amigo. Isso tudo aconteceu antes de Renata e ele falava essas coisas agora porque estava tudo bem, era passado, é claro que tinha superado. Superou tanto que aceitou o convite para ser padrinho do casamento dos dois, da união do melhor amigo com a sua ex-namorada. Perdeu 12 quilos na época, mas tinha superado, é claro. Era passado. Agora ele estava com uma garota maravilhosa, e essa sim, era Ela (voltou a pensar: se fosse uma coisa, a parede podia ser rosa, Renata iria gostar; se fosse outra, não haveria Renata).
Sua mulher era especial, querida. Todo mundo vivia elogiando: "É um doce", "Muito atenciosa", "É linda", "Uma flor". Estava atento a quem surgia por perto e não tolerava brincadeiras ou aproximações – que ele sabia, tinha certeza, não eram sempre bem intencionadas. Uma vez, por exemplo. Teve que mostrar, no empurrão, que sua namorada tinha dono. Que o rapaz do casal que se dizia amigo estava sendo inconveniente. Ele veio beijar a mão dela. Rogério não tolerou aquilo, e não importava se ele fosse parente da sua futura mulher. Outra vez, por exemplo. Estavam com as amigas delas, grupo grande. Preferia quando saíam a sós, mas Renata pediu. Estava estudando no Recife e, quando ia a Amaraji, fazia questão de encontrar com as antigas colegas. Percebeu que ela estava contente demais, feliz demais, falando demais. Parecia que podia ser feliz sem ele, inclusive. Decidiu ir embora. Renata foi atrás. Disse a ele que não havia nada, ela só estava se divertindo. É claro que havia alguma coisa. Achavam que ele era o quê? Ficou ainda mais irritado quando ela defendeu as meninas. Que ficasse com elas, então. Brigaram. Foi em um impulso que a empurrou. Estava de cabeça quente, pediu desculpa, mas ela se afastou. Foram quase dois meses sem vê-la. Ali percebeu que não podia perdê-la, que não podia ver outro grande amor ir embora. Ligou. Reataram e ele decidiu: queria casar (voltou a pensar: se fosse uma coisa, a parede podia ser derrubada para aumentar a cozinha, ele mesmo chamaria um pedreiro conhecido; se fosse outra, não haveria ele). Sentiu que Renata não estava muito certa, falou que talvez fosse cedo demais. Ele insistiu e ganhou. Fazia só três meses que acertaram o casamento. Era 18 de dezembro, havia chegado a hora e ele ainda não tinha certeza se haveria uma parede colorida no futuro dos dois. Pensou em ir ao apartamento, talvez conseguisse dormir um pouco. Mas estava em uma espécie de modo automático. Foi pagar o bufê, pegar a roupa, levar a bebida. Ainda precisava pegar Renata. Passou todo o dia naquele estado dormente.
Chegou a hora do casamento e ninguém, nem Ela, percebeu que ele não estava acordado. Os amigos – Rafael, Olavo, Paulo Henrique – também não. Nem seu pai ou sua mãe. Nem o pessoal da empresa. Nem os parentes dela (o que beijou a mão de sua mulher não apareceu). Nem as amigas que ele vencera, pois no fim Renata casou mesmo com ele. Foi até as mesas, falou com todos. Ia provar que também era simpático, pediu a Derivaldo, um dos garçons, que ele servisse bastante uísque. Era muita gente, tanta gente que nem se lembrava direito quem tinha chegado com aquelas brincadeiras, o apelido que ele detestava, as provocações por causa do casamento de Laura, a ex, com seu melhor amigo (é claro que ele tinha superado). Via Renata de longe: estava contente demais, feliz demais, falando demais. Parecia até que podia ser feliz sem ele. "Um doce, muito atenciosa, linda, uma flor". Pediu para tocarem de novo a música que ele escolheu como sendo dos dois e a chamou para dançar ("O que todos querem é só separar nós dois/Você é o que quero e vou continuar te amando/Eu não tô nem aí pro que os outros vão dizer/O que a gente sente ninguém tem nada a ver/Todos ficam falando que eu não sirvo pra você/Dizem que eu não presto só me meto em confusão/Querem nos afastar e acabar com nosso amor/Tirar você de mim"). Estava ela ali, dançando, de branco, agora tinham os nomes misturados, ela com o vestido que ele tinha escolhido. Aquela garota não era como a outra: não o trocou. Não era como a outra: ninguém a tomou. A mulher certa para ele. Era sua, mas todos queriam chegar perto dela. Voltou a pensar: se fosse uma coisa, voltariam para casa e ele continuaria a ver todos se aproximando, nem sempre bem intencionados. Se fosse outra, ele garantiria que ela ficaria só com ele e com mais ninguém. Se fosse uma coisa, ele abriria a possibilidade de uma nova lenta e certeira destruição, a possibilidade de virar de novo o passado amoroso de alguém. Se fosse outra, ele finalizaria aquelas possibilidades ali. Parecia ideal. Eram 2h21 da madrugada de sábado para domingo quando ouviu o fotógrafo falar: "olha de novo para a câmera, vamos fazer outra". Colocou a mão no ombro direito da moça que o acompanhava há mais de mil dias e que agora tinha Damascena em seu nome. Olhou rapidamente para a frente: viu as mesas com os convidados, o bolo branco de três andares, em cima dele uma moto que levava dois felizes noivos de açúcar, a piscina decorada com flores. Viu as taças de champanhe."Olha para a câmera", ouviu de Renata. Ela estava feliz, talvez feliz demais, talvez ela pudesse ser feliz mesmo sem ele. Foi até o carro. Voltou. Estava dormente quando reuniu a todos para anunciar sua escolha, que chamou de surpresa (continuava tentando ser simpático). Era uma pena que muita gente já tivesse ido embora, mas não importava: todos saberiam quem era ele, quem era Ela, que ele jamais seria trocado, jamais seria deixado, que ninguém voltaria a brincar com as coisas que um dia o destroçaram lentamente, que ninguém – nem os amigos da rua, os amigos do trabalho, as amigas dela, todos que estavam ali – deveria brincar com as coisas que ele nunca tinha superado. Decidiu que o apartamento não terminaria de ser pintado e puxou o revólver. No outro dia, na frente do delegado, alguém disse: "Conhecia ele, era ciúme normal, não era obsessivo."

Realidade

"Parece mentira... mas a hora chegou... vamos nos casar!!! Rogério e Renata, com a bênção de seus pais, convidam para seu casamento no dia 18 de dezembro de 2010, às 19 horas." Renata olhou novamente o convite do seu casamento. Estava simples, mas gostou dele mesmo assim: um desenho, feito no computador, do noivo ajoelhado pedindo a mão da noiva. Olhou o vestido sobre a cama: todo drapeado no busto, uma alça só de flores. Bonito. Rogério escolheu. O outro que a madrinha mostrou também era, mas, enfim, preferiu dar esse presente ao noivo. Não queria outro clima pesado, outra desnecessária confusão. Quando ele pediu para ela usar o modelo, achou que era brincadeira. Rogério sabia que ela e a madrinha já estavam procurando alguns. Brincou, mas ele ficou chateado e até chorou quando ela finalmente falou que casaria com a roupa que ele escolheu. Estavam em uma lanchonete com Prazeres, sua mãe, que também ria do noivo transtornado. Achou bonito aquele amor todo.
Aqueles dias foram cansativos, muita coisa para resolver: trabalho a mais no fórum, pensar no bufê, a decoração (ao menos Vera, tia de Rogério, estava ajudando). Tinha que ir a Amaraji ver a mãe, sair para fazer compras com a madrinha. Era assim que chamava a senhora que a adotou ainda criança, mas é claro que ela era mais que isso. Era também sua mãe, a pessoa que cuidou e investiu nela. Quando avisou, em setembro, que iria se casar em três meses, percebeu seu espanto. Muita gente não entendeu. Qual a pressa? E casar em um mês tão cheio? Mas Rogério queria assim. Ela chegou a dizer que talvez fosse cedo, tinha se formado há pouco tempo, era hora de ambos investirem nas carreiras. Por outro lado, o casamento poderia tornar seu namorado um pouco mais confiante. Talvez ele deixasse o ciúme de lado após ver o sobrenome dele unido ao dela. O novo sobrenome, aliás: há pouco havia mudado, no cartório, o Costa original, de sua mãe, para o Coelho da família que a adotou. Não falou nada a Prazeres, teve medo de magoá-la. Era uma forma de homenagear a família que a acolheu.
O apartamento seria a última coisa que Renata ganharia da família, tinha certeza: dali em diante, tudo o que ela conquistasse seria consequência do próprio trabalho. Era seu objetivo, foi por isso que ficou tão animada com a entrevista de emprego em um escritório de advocacia do Recife. O salário era bom, disseram que poderia chegar logo a R$ 5 mil. Passou o dia lá, trabalhou bem. Quando voltou, um dos vários sócios a chamou. "Você é um doce, atenciosa, linda, uma flor, mas não podemos lhe empregar. Temos homens demais, velhos demais, não seria um bom lugar para você." Saiu de lá muito mal, ligou para a mãe, se encontraram em um shopping. Chorou muito. Aquilo era preconceito. Conhecia-o bem, tanto por ser mulher quanto por ser adotada. Mas agora nada disso era problema: tinha diploma, uma casa nova e Rogério, seu marido. Era uma nova fase e agora ela poderia cuidar de suas mães e de Raíssa, a sobrinha a quem daria uma estabilidade que ela mesma custou a ter.
Ligou de novo para Daniela, que encontrou dois dias antes, no salão de Nazilda. Gostavam-se muito, morou na casa da amiga logo que chegou a Amaraji, sem canto para ficar. Estava triste porque ela não iria para a festa de casamento. Insistiu, mas Dani falou que precisava trabalhar. Nem mesmo para o casamento no civil, que seria no outro dia, na sexta, ela poderia ir. A ligação caiu na caixa postal. Queria tanto falar com ela, conversar sobre a casa nova, combinar para irem juntas comprar as cortinas. Queria também dizer o que estava sentindo, um medo, uma coisa meio ruim, o peito trancado. Dani tinha percebido já na quinta, quando se encontraram no salão. Terminava de arrumar o cabelo para a cerimônia civil quando a amiga comentou que ela estava com a aparência abatida. "Nem parece que tu vai casar." Mas era só cansaço. Tinha que dar conta do trabalho, das coisas do casamento, das duas famílias. E havia a insegurança de Rogério, uma insegurança que, ela sabia, nasceu no momento em que sua ex, Laura, o trocou por um amigo. Contaram: ele quase morre de tristeza. Ela tinha certeza: o amor dos dois, a troca de alianças, mudaria tudo.
O telefone tocou. Era o noivo perguntando se ela estava pronta. Estava, só faltava pegar o buquê e colocar a tiara, decidiu usar uma para manter o cabelo arrumado, já que Rogério quis entrar de moto na festa. Tinham que sair mais cedo para passar na casa do irmão, ele ligou avisando que sua mãe, estava lá justamente para ir ao casamento, tinha passado mal. Há dias andava agitada, nervosa. Precisou ir ao hospital, tomou injeção. Avisou que não iria mais ao casamento. No íntimo, Renata sabia que a mãe não concordava com a cerimônia espírita organizada pela família da madrinha. Chorou muito, mas seguiu para a festa. Agora não podia fazer nada, estava cansada de ficar no fogo cruzado. Era hora de aproveitar sua nova vida, de comemorar tudo o que tinha conseguido. Ela e Rogério ficariam bem, logo ela teria um escritório, daria uma casa a mãe Prazeres, seria orgulho para a madrinha. Escutou a buzina e Rogério chamou. Saiu do quarto sabendo que dali em diante sua vida iria mudar.

Memória

É Maria quem conta: chegou a Amaraji levando três filhos, um na mão, outro a seguia, mais um no colo. O da mão era Robério, quem seguia era Rodrigo, quem ia colada a seu peito era Renata. Saíam do Recife, de um lar que fora assaltado enquanto a mãe, viúva, estava fora. Maria soube que alguns de seus objetos foram parar naquela cidadezinha cercada de cana. Quis ir lá: levou não apenas os meninos e a menina, mas também a polícia. Não deixou nada para trás. Tampouco sabia exatamente como e por que voltar. Na delegacia local, a situação da mulher em busca de seus poucos bens materiais, os meninos sem ter onde dormir, comoveu. Falaram com o então prefeito. Ele arranjou um lugar temporário para ela e os filhos. Maria, Robério, Rodrigo e Renata agora moravam em Amaraji. Tudo isso aconteceu há 17 anos.
É Maria quem conta: depois foram viver na residência de uma das poucas famílias que eram "bem de vida" na cidade. "Bem de vida" deve aqui ser entendido como ter um ou dois carros, a casa grande com cerâmica, o jeans da marca que todos acham importante. Morava naquela casa grande, onde também ajudava nas tarefas diárias. Foram cerca de seis anos na residência distintiva: no começo, tudo bem. Com o tempo, não tão bem assim. O famoso "você é de casa" começou a desbotar, a sofrer o desgaste natural do tempo que no fim entrega: você nunca foi daqui. Arrumou outra ocupação, uma que dava para bancar o aluguel. Decidiu sair, mas sabia que não poderia sustentar todos os filhos. A dona da casa, que se afeiçoara especialmente a Renata, chegou perto. "Quero criar a menina. Deixe ela morar conosco." Maria deixou. Daquele dia em diante, a mulher tornou-se "madrinha". Apesar de não morarem mais juntas, Renata e Maria continuaram a se ver: a menina saía da escola e passava na casa de Maria, agora transformada em "mãe biológica" (ela detesta, nunca se acostumou). Renata já era uma mocinha quando avisou o que queria fazer no futuro próximo: ser advogada. Era o sonho dos pais que moravam na casa grande. Ela aceitou, talvez como forma de agradecer o confortável teto. Maria apoiou e não muito tempo depois viu a filha ingressar em uma universidade. Continuava a visitar a mãe, mas agora um pouco menos, porque além de estudar também começou a estagiar no fórum local, o José Cipriano Vasconcelos. Maria às vezes passava lá também. Via como a filha era querida e se orgulhava do que diziam dela: "É um doce", "Muito atenciosa", "É linda", "Uma flor".
É Maria quem conta: um dia, Renata, doce, atenciosa, linda, flor, anunciou para a mãe que estava namorando. Disse que o conhecia há tempos, que ele tinha até namorado uma das moças da família de lá, a bem de vida. Que quando eram pequenos, bem pequenos, estudaram na mesma escola em Ribeirão. Que ele, quando a viu, quis logo namorar. Renata havia acabado um relacionamento longo há pouco tempo, mas aceitou. Não gostava de ficar só. "Ela era carente, muito carente." Um dia, marcaram um encontro e Maria foi apresentada ao rapaz, que se chamava Rogério. Achou ele bonito e bom para sua filha. Poucas vezes a viu chegar triste em casa. Em uma delas, adivinhou: brigaram e terminaram o namoro. Soube naquele dia que ele era muito ciumento. Que nenhum homem podia olhar para ela. Que nem das amigas dela ele gostava. Soube que sua filha estava sufocada. Mesmo assim, entendeu quando eles voltaram e poucas semanas depois ele pediu Renata em casamento. Uma das moças que trabalhavam com ela no fórum ("era um doce, uma flor") chegou para Maria e comentou: "Eu acho que sua filha não tá muito feliz para casar".
É Maria quem conta: Renata terminou o curso superior. Ganhou um carro do namorado. A mãe ficou, mais uma vez, feliz em ver o sucesso da filha, feliz em vê-la desfrutar de um conforto que provavelmente ela nunca poderia oferecer. O dia da formatura foi de festa, mas Maria não estava lá. Tinha se acostumado a estar nos bastidores da vida da própria filha. No material impresso da formatura, viu a foto de Renata agora advogada. Abaixo da imagem, estavam os nomes do pai e da mãe da família bem de vida. Ficou um pouco triste, é verdade, queria estar ali. Mas sabia, que, na sua casa mais humilde, Renata chegava para ela, mãe biológica, e se abria. "Mãe, eu não tenho nada, só o que é dos outros. Eu vou trabalhar para ter o que é meu." "Mãe, um dia eu vou ser juíza, promotora, vou ganhar dinheiro e dar uma casa a você." "Mãe, eu vou colocar Raíssa em uma escola boa." Confirmava-se: aquele mundo de pobreza que Renata conheceu, a falta de perspectiva experimentada por quem chega a uma nova cidade sem ter onde ir dormir, não existia mais. Um dia, perto do casamento, foi encontrar a filha e seu futuro marido em uma lanchonete. Discutiam suavemente sobre o vestido de noiva que seria usado na festa. A madrinha queria que a moça usasse um modelo. Rogério queria outro. Renata queria agradar aos dois. Ele ficou triste, depois irritado, depois calado. A noiva começou a brincar com aquela situação, mas, percebendo que o rosto do noivo não sorria, decidiu casar usando a preferência dele. Não queria arrumar mais confusão. Rogério, emocionado, começou a chorar. A mãe achou que aquilo era amor.
É Maria quem conta: A poucas semanas da festa de casamento, começou a sentir um negócio ruim, a respiração foi ficando mais curta, "o peito trancado, sabe?". Veio uma ansiedade inédita, cuja causa ela não sabia localizar. Falou para as colegas que trabalham com ela na pequena escola municipal. "Toma um calmante", "Maracujá é bom", "Tem dormido bem?" Renata também se preocupou com a agonia. "O que você tem, mãe? Fique calma. Toda vez que a senhora fica assim acontece alguma coisa ruim." Dois dias antes do casamento, foi para a casa de um dos filhos, que há tempos moravam em Recife. Ia de lá para a cerimônia. Separou roupa, sapato. Aí chegou o 18 de dezembro e o tranco no peito aumentou. "Eu queria correr, eu queria gritar." Às 16h, acharam melhor levá-la para um hospital, o Barão de Lucena, onde tomou uma injeção e ficou em observação. Depois voltou para casa. Às 21h, perto da hora do casamento, Renata, arrumada como noiva, apareceu. A mãe anunciou: não tinha condições de ir para a festa. Que ela desculpasse, mas não ia. Que se soubesse, se tivesse uma razão, acabaria com tudo aquilo, chegaria como louca, quebraria tudo e Renata não casaria. Mas não tinha por que fazer uma coisa dessas. A filha deixou a mãe e foi embora, chorando. Rogério despediu-se: "Fique bem, sogra dois."
É Maria quem chora: estava na casa do filho quando soube: sua Renata, um doce, atenciosa, linda, uma flor, estava morta. Como podia estar morta? Porque Rogério, que era bonito, que era bom, parou a festa, sacou um revólver e atirou. Como Rogério poderia fazer uma coisa dessas? Ela, até hoje, não sabe. O outro rapaz, que morreu na mesma hora, que não tinha nada a ver com aquilo, ela não conhecia. Quando viu, estavam todos falando sobre o assunto, cada um tinha uma opinião, uma teoria, parecia que todos queriam de alguma maneira denegrir sua filha. Ela ficou calada. Não apareceu na TV, não foi depor na polícia, não surgiu em nenhum local identificada como a verdadeira mãe daquela triste noiva morta. Passou dois meses sem se levantar da cama. Não conseguia andar, abrir os olhos, mexer o corpo. Não conseguia, principalmente, entender. Vai recapitulando Renata, as conversas, a voz que denunciava tristeza ou alegria, a vontade de se tornar “alguém”, de ser “bem de vida”. Vai recapitulando Rogério: a simpatia, a beleza, os presentes para a filha, o pedido de casamento. As coisas recapituladas não se encaixam. Nas mãos, Maria leva as fotos daquele dia na lanchonete. Em uma imagem a filha ri e fala com ele, que parece irritado (foi tirada antes de Renata aceitar casar com a roupa que ele queria). Na outra, ele está contente, abre um sorriso, enquanto ela está de olhos baixos, triste, a cabeça encostada em uma das mãos (foi tirada depois que ela acatou o pedido dele). Maria observa as imagens e repete: “Eu passo tanto tempo olhando para ele... tanto tempo... e não consigo, não consigo”. Para ela, o temperamento, a beleza e a suavidade de Renata foram de alguma maneira o seu próprio fim. Porque todos a queriam por perto. Porque ela era “um anjo que ninguém merecia”. “Não sei se foi amor demais, cuidado demais, ciúme demais.” Agora Maria procura retomar a vida do presente para não viver apenas da dolorosa memória. Agora cuida da neta, Raíssa, filha de Robério. Quer mantê-la, quer dar a ela o que Renata não teve. A mãe da casa grande, a madrinha também destroçada pelo inexplicável, surgiu novamente para dizer: “Quero ajudar a criar a criança”. Maria, mais uma vez, aceitou. Parece há 17 anos: voltaram a olhar para uma mesma criança. As duas mães, agora uma só, compartilham o mesmo desejo: que nenhum amor partido jamais toque esta linda, doce, flor, essa menina.

Fabiana moraes.

Fonte: JC On line.

Amanhã, mais uma história deste especial Nelson Rodrigues, o "anjo pornográfico" do teatro.